domingo, agosto 27, 2006

As minhas palavras... 27 de Agosto de 2006



Bom dia, amigos!

Depois de lutas herculianas com o Blogger, finalmente consegui publicar todos os poemas que escolhi para esta semana.

A temática de hoje é África. Devido à dimensão do continente e à qualidade de poemas que encontrei resolvi ir publicando, a pouco e pouco, todas as palavras que me tocaram, separando as poesias pelo país de origem dos seus autores. Para hoje escolhi os poetas de Angola.

Os poemas exprimem diferentes visões de Angola, vistas pelo olhar de angolanos negros e vista pelos angolanos brancos durante o último século.

Deste modo, escolhi:

- Presença Africana - Alda Lara
- Prelúdio - Alda Lara
- November without water - Ana Paula Ribeiro Tavares
-"Monangamba" - António Jacinto
- Feitiço do batuque - Geraldo Bessa Victor
- Poema da Negra - geraldo Bessa Victor

Espero que gostem e deixem o vosso comentário.

Um abraço,

Susana.


Foto: "Pôr do dia" by Tonspi

Alda Lara - Presença Africana






E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou,
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou, a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendêm
nascendo dos abraços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo
chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11! ... Rua 11...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força deste dia...

E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
longa história inconsequente...

Minha terra...
Minha, eternamente ...

Terra das acácias, dos dongos,
dos colios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
pura e livre
me levanto,
ao aceno do teu povo!



Alda Lara (Poeta angolana, 1930-1962)



Foto by Kaysha

Alda Lara - Prelúdio



Foto "Mãe" by Zokete




(para Lídia, minha velha ama negra)


Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra desce com ela.

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos
nas suas mãos apertadas...

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
tem voz de noite descendo
de mansinho pela estrada.

... Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada.
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo,
Mãe-Negra...

É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaços,
bem quieta, bem calada...

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo
de mansinho pela estrada...



Alda Lara (Poeta angolana, 1930-1962), in «Resistência Africana» - Antologia Poética



Ana Paula Ribeiro Tavares - November without water



Foto: "The Tear" By Richard Emblin



Olha-me p'ra estas crianças de vidro
cheias de água até às lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes do lixo.

Olha-me estas crianças transporte
animais de carga sobre os dias
percorrendo a cidade até aos bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.



Ana Paula Ribeiro tavares (Poeta angolana, 1952- )


António Jacinto - Monangamba



Pintura: "Cafezal" de Enrico Bianco



Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;

Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem as aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai a tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipoia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdem
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?


Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
maquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir ás palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

- "Monangambéé...'"



António Jacinto (Poeta angolano, 1924-1991) de Poemas, 1961

Geraldo Bessa Victor - O Feitiço do Batuque



Foto daqui



Sinto o som do batuque nos meus ossos,
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.

Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.

Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus ímpetos carnais.

O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuído de magia!

A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais terá fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!




Geraldo Bessa Victor (Poeta angolano - 1917- )


Geraldo Bessa Victor - Poema para a Negra



Foto by Paul Renaux



Deixa que os outros cantem o teu corpo
que dizem feiticeiro e sedutor,
e, na volúpia vã do pitoresco,
entoem madrigais à tua dor.

Deixa que os outros cantem teus requebros
nos passos de massemba e quilapanga,
e teus olhos onde há noites de luar,
e teus beiços que têm sabor de manga.

Deixa que os outros cantem os teus usos
como aspectos formais da tua graça,
nessa conquista fácil do exotismo
que dizem descobrir na nossa raça.

Deixa que os outros cantem o teu corpo,
na captação atónita do viço
e fiquem sempre, toda a vida, a olhar
um muro de mistério e de feitiço...

Deixa que os outros cantem o teu corpo
- que eu canto do mais fundo do teu ser,
ó minha amada, eu canto a própria África,
que se fez carne e alma em ti, mulher!



Geraldo Bessa Victor (Poeta Angolano, 1917- )



domingo, agosto 20, 2006

As minhas palavras... 20 de Agosto de 2003

Caros amigos,

Os poemas desta semana falam do amor/dor e do amor/morte...porque nem sempre o amor é feliz.

Este tema surgiu a partir do poema que me foi enviado pela Carla: No teu branco seio eu choro, de Vinicius de Moraes.

Depois escolhi:

- Alma minha gentil, que te partiste, de Luis de Camões;
- Estranha forma de vida, de Amália Rodrigues;
- Fecham-se os dedos donde corre a esperança, de Ary dos Santos.

Espero que gostem e deixem o vosso cometário. Se não gostarem podem e devem comentar na mesma. : )

Quero agora aproveitar para agradecer à Carla o envio do poema, ao Pedro Sousa pelo comentário simpático e a todos os outros visitantes. Voltem sempre.

Por hoje é tudo.

Beijinhos.

Susana.

Luís Vaz de Camões - Alma minha gentil, que te partiste



Foto: Love is in the air by blue black diamond




Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.




Luís de Camões (Poeta português, 1524 ou 1525 - 1579 ou 1580)

Amália Rodrigues - Estranha Forma de Vida



Estranha forma de vida
 
Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.
 
Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.
 
Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.
 
Eu não te acompanho mais:
pára, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.
 
Amália Rodrigues (Fadista e poetisa portuguesa, 1920-1999)


Foto: a piece of my heart by six degrees

Vinicius de Moraes - No teu branco seio eu choro



Foto: You will be missed, by BidWiya



No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!



Vinicius de Moraes (Poeta Brasileiro, 1913-1980)

Ary dos Santos - Fecham-se os dedos donde corre a esperança



Fecham-se os dedos donde corre a esperança


Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.


José Carlos Ary dos Santos (Poeta português, 1937-1984)




Foto: Me hand BW by Jahbuzz

terça-feira, agosto 15, 2006

As minhas palavras... 15 de Agosto de 2006

Caros amigos,

estou de regresso de umas férias merecidas, mas muito curtas! : )

O tema desta semana é SER POETA. O mote deste tema foi dado por um poema que me acompanha à alguns anos: "Ser poeta" de Florbela Espanca. Depois escolhi:

- Autopsicografia, de Fernando Pessoa
- Original é o Poeta, de Ary dos Santos
- Poesia e Poetas, de Mário Quintana

Espero que gostem.

Quero aproveitar este espaço para agradecer os comentários do Manuel e da Inês Diana. Obrigada. Voltem sempre.

Por hoje é tudo.

Até domingo.

Beijinhos, Susana.

Florbela Espanca - Ser Poeta



Ser Poeta
 
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela Espanca (Poetisa portuguesa, 1894-1930)


Foto daqui

Fernando Pessoa - Autopsicografia




Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Fernando Pessoa (Poeta Português, 1988-1935)


Quadro: Fernando Pessoa by Almada Negreiros

Ary dos Santos - Original é o Poeta


Original é o poeta


Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.


Ary dos santos (Poeta Português, 1937-1984)



Imagem by MGBON

Mário Quintana - Poesia e Poetas



Foto: Pesquisa Google



Os poemas são pássaros
que chegam não se sabe de onde
e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro,
eles alçam vôo como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto
alimentam-se um instante
em cada par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...



Mário Quintana (Poeta Brasileiro, 1906-1994)

quinta-feira, agosto 10, 2006

Férias


Caros amigos,
vou passar uns dias fora, num lugar recôndido, sem pc's e sem net. Como tal, as palavras que me tocam... desta semana chegarão um pouco mais tarde. Publicarei algo novo dia 14 de Agosto, segunda-feira.

Adeus e até ao meu regresso.

Beijinhos, Susana.

domingo, agosto 06, 2006

As minhas palavras... 6 de Agosto de 2006

Caros amigos,

Resolvi criar um espaço neste blog com as minhas palavras. Este espaço será constituído pela apresentação dos textos escolhidos.

Esta semana escolhi o tema Poetas e Cantores de Intervenção. Este tema foi suscitado pelo Jorge Preto que me enviou o poema "Há que dizer-se das coisas" de José Carlos Ary dos Santos. Os meus agradecimentos ao Jorge.

A partir deste tema, escolhi...

Zeca Afonso - Os Vampiros
Manuel Freire - Ei-los que partem
Manuel Alegre - Trova do vento que passa
Ary dos Santos - Tourada


Sou uma filha da revolução e conheci muito do que se passou durante o fascismo através da poesia de intervenção. Estes poemas-canção são apenas alguns dos que poderiam estar aqui a representar o movimento de contestação ao governo fascita do Estado Novo. Escolhi estes poemas porque marcaram uma parte da minha vida e me lembram alguns amigos da adolescência, me lembram o grupo de teatro da escola secundária e me lembram uma professora de história que marcou muito o modo como vejo o mundo [um abraço para a professora Fernanda Lourenço].

Espero que gostem.

Por hoje é tudo.

Um abraço.

Susana.

Ary dos Santos - Há que dizer-se das coisas



Há que dizer-se das coisas


Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e o cão não passa de um cão.


Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
E se o literato for de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escrevemos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão.
Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

José Carlos Ary dos Santos (Poeta português, 1937-1984)


Foto by Joie de Vivre

Zeca Afonso - Vampiros



Vampiros



No céu cinzento

Sob o astro mudo

Batendo as asas

Pela noite calada

Vêm em bandos

Com pés veludo

Chupar o sangue

Fresco da manada


Se alguém se engana

Com seu ar sisudo

E lhes franqueia

As portas à chegada

Eles comem tudo

Eles comem tudo

Eles comem tudo

E não deixam nada


A toda a parte

Chegam os vampiros

Poisam nos prédios

Poisam nas calçadas

Trazem no ventre

Despojos antigos

Mas nada os prende

Às vidas acabadas


São os mordomos

Do universo todo

Senhores à força

Mandadores sem lei

Enchem as tulhas

Bebem vinho novo

Dançam a ronda

No pinhal do rei


Eles comem tudo

Eles comem tudo

Eles comem tudo

E não deixam nada


No chão do medo

Tombam os vencidos

Ouvem-se os gritos

Na noite abafada

Jazem nos fossos

Vítimas dum credo

E não se esgota

O sangue da manada


Se alguém se engana

Com seu ar sisudo

E lhe franqueia

As portas à chegada

Eles comem tudo

Eles comem tudo

Eles comem tudo

E não deixam nada


Eles comem tudo

Eles comem tudo

Eles comem tudo

E não deixam nada



Zeca Afonso (Poeta e cantor português, 1929-1987)



Imagem: Nosferatu by al dark side

Manuel Alegre - Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa

Notícias do meu país

E o vento cala a desgraça

O vento nada me diz



Trova do vento que passa


Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz
O vento nada me diz


Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.


Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais? Ninguém diz.


[Se o verde trevo desfolhas

pede notícias e diz

ao trevo de quatro folhas

que morro por meu país.


Pergunto à gente que passa

por que vai de olhos no chão.

Silêncio -- é tudo o que tem

quem vive na servidão.


Vi florir os verdes ramos

direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

vi sempre os ombros curvados.


E o vento não me diz nada

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.


Vi minha pátria na margem

dos rios que vão pró mar

como quem ama a viagem

mas tem sempre de ficar.


Vi navios a partir

(minha pátria à flor das águas)

vi minha pátria florir

(verdes folhas verdes mágoas).


Há quem te queira ignorada

e fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada

nos braços negros da fome.


E o vento não me diz nada

só o silêncio persiste.

Vi minha pátria parada

à beira de um rio triste.


Ninguém diz nada de novo

se notícias vou pedindo

nas mãos vazias do povo

vi minha pátria florindo.


E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.


Quatro folhas tem o trevo

liberdade quatro sílabas.

Não sabem ler é verdade

aqueles pra quem eu escrevo.]


Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.


Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não.



Manuel Alegre (Político, escritor, poeta português, 1937- )



Foto: Smelling the rain, by Fib

Manuel Freire - Ei-los que partem



Ei-los que partem


Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos

Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados

Virão um dia
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não


Manuel Freire (Técnico de computadores, poeta e cantor português, 1942 - )



Foto: Path of solitude by Bokchoyboy

Ary dos Santos - Tourada



Tourada



Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.


José Carlos Ary dos Santos (Poeta Português, 1937-1984)



Foto: Bull by Midzia