segunda-feira, dezembro 31, 2007

As minhas Palavras... 31 de Dezembro de 2007





Que o novo ano nos traga amor, saúde, dinheiro, paz e muitos sonhos realizados!
Feliz 2008.


Carlos Queirós - Amizade



Foto: Intimacy, by Amsterdammed



De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: “Espera e confia!”
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.




Carlos Queirós (Poeta português, 1907-1949)

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Affonso Romano de Sant'Anna - Reflexivo



Imagem: "Reflection", autor desconhecido.



O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.


Affonso Romano de Sant'Anna (Poeta e Jornalista Brasileiro, 1937- )

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Alice Ruiz - Teu corpo seja brasa



Foto: Andreas Heumann



teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo



Alice Ruiz (Poetisa e escritora brasileira)

terça-feira, dezembro 25, 2007

As minhas Palavras... 25 de Dezembro de 2007




Caros amigos,

deixo aqui o meu desejo de que tenham um Natal muito Feliz e que o passem na companhia dos que mais amam.

Um abraço.

Susana B.


Teresa Balté - cerras a garganta para que a paixão não suba



cerras a garganta para que a paixão não suba
à língua amarga ausente a outra boca
disciplinas o peito para que o amor não flua
em flores e em orvalhos e não se reproduza

cristalizas a fome envelheces à míngua
a vida não regressa o juro é ouro é ferida
o acúleo na rosa o golpe de alegria
a vida é a/ventura não aprendeste ainda?




Teresa Balté (Poetisa Portuguesa, 1942- )

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Pablo Neruda - Os teus pés



Foto: Marruecos, de Tiavir



Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,

Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.



Pablo Neruda (Poeta Chileno, 1904-1973)

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Pablo Neruda - O Oleiro



Há em todo o teu corpo
uma taça ou doçura a mim destinada.

Quando levanto a mão
encontro em cada lugar uma pomba
que andava à minha procura, como
se te houvessem, meu amor, feito de argila
para as minhas mãos de oleiro.

Os teus joelhos, os teus seios,
a tua cintura,
faltam em mim como no côncavo
duma terra sedenta
a que retiraram
uma forma,
e, juntos,
estamos completos como um só rio,
como um só areal.



Pablo Neruda (Poeta Chileno, 1904-1973)

segunda-feira, dezembro 17, 2007

António Mega Ferreira - Se não estivesses



Se não estivesses,
se a concha dos teus dedos
não fizesse vibrar em mim,
gota a gota,
a tua voz,
se não esticasses os braços
sobre um qualquer
espaço
que nunca será nosso,
se o teu sorriso
agora distendido
não se mostrasse todo
nos gestos do amor,
se a tua mão não procurasse
a minha, ou os meus dedos
não pudessem, ainda
que ao de leve,
tocar a ponta frágil dos teus cabelos
escuros,
se eu não encontrasse
em ti o meu olhar,
às vezes,
quando finjo que não vejo
o teu olhar
em mim,
se os dias não fossem
confortados
com a ideia de que existes
sensivelmente existes,
e que, por isso, de alguma
forma, eu sou em ti
a minha forma de existir
- estas palavras, as frases
que as expõem, o poema
em que tudo se articula, no íntimo
sentido que só existe
dentro do poema, tudo o que
é
e, ainda,
o que possa caber em nós, secretamente,
seria uma triste passagem
pelo que resta
e nem os meus olhos, e nem as minhas
lágrimas
diriam o que dizem;
porque a mão que escreve, o seu último
argumento, está
na concha dos teus dedos
e no gemido que atraiçoa
a tua voz.




António Mega Ferreira (Escritor e Jornalista português, 1949- )

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Líria Porto - Intimidade















Foto: Love, de dcip



passa a roupa
avesso direito
frente costas
costuras
gola cós
barra

ele vem
abraça-a
faz-lhe cócegas
amarrota tudo

dão risadas



Líria Porto (Poetisa brasileira que publica aqui)

Líria Porto - Temos asas viradas para dentro




ninguém é só bom ou ruim
pensem o que pensem
assim somos
mestiços de anjo
e demônio



Líria Porto (Poetisa brasileira que publica aqui)

Líria Porto - Perplexidade



o mundo
é uma bola quadrada
que gira parada
fincada no espanto



Líria Porto (Poetisa brasileira que publica aqui)

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Nuno Júdice - Declaração






Gosto das mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.




in «A Fonte da Vida», 1997

Nuno Júdice (Escritor e Poeta português, 1949- )

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Manuel Alegre - Um arrepio corre as minhas pernas



Foto: Bettina Bergemann



Um arrepio corre as minhas pernas
quando nelas se enrosca a tua cobra
mas pouco a pouco as mãos ficam mais ternas
e o que em mim se endireita em ti se dobra.

Por vezes se conjugam cobra e tigre
para que os anjos finalmente acordem
e o reino dos sentidos seja livre
quando as bocas se beijam e os deuses mordem.

Eis que as tuas agulhas me magoam
e as tuas unhas gravam em minhas costas
as aves do desejo que só voam

quando te faço tudo o que tu gostas
ainda que os prazeres por vezes doam
se acaso os dois abrimos outras portas.




Manuel Alegre (Político e poeta português, 1936 - )

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Eugénio de Andrade - Para quem eu amo



Pintura: Fervor de Antoine de Villiers



Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.




Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923-2005)

As minhas Palavras... 03 de Dezembro de 2007



COMUNICADO IMPORTANTE!!!

Caros amigos, visitantes, leitores e poetas...

por motivos profissionais tornou-se difícil para mim fazer a pesquisa e a publicação dos poemas ao domingo. Para evitar o encerramento deste espaço, deste hobby e deste prazer de ler poesia, vou alterar o formato e a periodicidade das publicações. Deste modo, passarei a publicar um único poema às 2.ª, 4.ª e 6.ª feiras.

Um beijinho a todos e obrigado pelas vossas visitas.

Susana B.