segunda-feira, março 24, 2008

Mafalda Veiga - No fundo dos teus olhos



Tu és a luz
Sentida nos luares do firmamento
Tu és o fogo
Que nos acende a alma num momento
Dentro da noite
Há uma chama mágica a brilhar
Que te enfeitiça
E ilumina o teu corpo a dançar

Tu és a cor
Por dentro das palavras que navegam
És o calor
De tudo o que te dão e que te negam
O brilho intenso de um olhar
Um sol que se acendeu
A pulsação do mundo
A vida inteira
A desejar o que se perdeu

À procura
À procura de um sonho
À procura
À procura de ti
Há um mar escondido
No fundo dos teus olhos
Que te leva
Pra tão longe daqui




Mafalda Veiga (Poeta e cantora portuguesa, 1965- )

quarta-feira, março 19, 2008

Ana Paula Ribeiro Tavares - Não conheço nada do país do meu amado



Não conheço nada do país do meu amado
Não sei se chove, nem sinto o cheiro das
laranjas.

Abri-lhe as portas do meu país sem perguntar nada
Não sei que tempo era
O meu coração é grande e tinha pressa
Não lhe falei do país, das colheitas, nem da seca
Deixei que ele bebesse do meu país o vinho o mel a carícia
Povoei-lhe os sonhos de asas, plantas e desejo
O meu amado não me disse nada do seu país

Deve ser um estranho país
o país do meu amado
pois não conheço ninguém que não saiba
a hora da colheita
o canto dos pássaros
o sabor da sua terra de manhã cedo

Nada me disse o meu amado
Chegou
Mora no meu país não sei por quanto tempo
É estranho que se sinta bem
e parta.
Volta com um cheiro de país diferente
Volta com os passos de quem não conhece a pressa.




Ana Paula Ribeiro tavares (Poeta angolana, 1952- )

segunda-feira, março 17, 2008

Ana Paula Ribeiro Tavares - O meu amado...



O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro
marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo. Planta árvores
de seiva e folhas. Dorme sobre o cansaço embalado pelo momento
breve da esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida.
Depois parte.

Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.




Ana Paula Ribeiro tavares (Poeta angolana, 1952- )

sexta-feira, março 14, 2008

Rosa Lobato Faria - E de novo a armadilha dos abraços



Foto: Carlos Machado



E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.




Rosa Lobato Faria (Actriz, escritora, autora e poetisa portuguesa, 1932- )

Fonte: Webclub

quarta-feira, março 12, 2008

Natália Correia - Harmonioso vulto que em mim se dilui



Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.

Intuito de ter.
Intuito de amor não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.




Natália Correia (Poetisa portuguesa, 1923-1993)

segunda-feira, março 10, 2008

Maria João Fernandes - Varanda



A terra hoje é uma varanda
sobre um jardim de Matisse
um claro degrau de pedra nua
no interior de um poço
rodopiam as cores na água
cintilações, folhas, frutos, sargaços
raízes, e perto talvez os teus passos.




Maria João Fernandes (Poetisa Portuguesa)

quarta-feira, março 05, 2008

Carlos Drummond de Andrade - A Moça que Mostrava a Coxa



Foto: Penélope Cruz



A moça mostrava a coxa,
a moça mostrava a nádega,
só não mostrava aquilo
- concha, berilo, esmeralda -
que se entreabre, quatrifólio,
e encerrra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
á visão dos seios claros,
qua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o maximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-d'alva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjoo
de fera presa no Zôo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre! mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
Mas que perfume teria
a gruta invisa? que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prístina, pura,
me chamava, me fugia?
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quando mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...



Carlos Drummond de Andrade (Poeta Brasileiro, 1902-1987)

segunda-feira, março 03, 2008

Dímitra Mandá - Olhas-me



Olhas-me
e as palavras multiplicam-se nas palmas das minhas mãos
nos teus cabelos fundos viaja a minha voz.
Falas-me
e mares abrem-se
que se arrepiam de beijos e carícias dos ventos.
E amo-te no infindável meio-dia.




Dímitra Mandá (Poetisa Grega)

Poema encontrado no Sentir Sentido