quarta-feira, outubro 29, 2008

Cecília Meireles - Canção do Amor-Perfeito






O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.



Cecília Meireles (Poetisa brasileira, 1901-1964)

quarta-feira, outubro 22, 2008

D. Tomás de Noronha - A uma Regateira



ENDECHAS

Do mesmo D. Thomás
A Minha Isabel
Saiu esta tarde
A matar de amores,
A vender gorazes.

Deitada ao pescoço
A beatilha leva,
Pois de desprezar
Somente se preza,

Por fresco apregoa.
O peixe, meu bem,
E no apregoar fresco
Quanto sal que tem!

Gadelhinhas louras,
Que pelas gadelhas
A minha alma anda
Pendurada nelas.

Em continhas brancas
Extremos vermelhos,
Porém como ela
Não há tal extremo.

Memória de prata
Metida no dedo,
Vá-se embora o ouro,
Que não tem tal preço.

Sainha de pano,
Barra de veludo,
Mantilha vermelha,
Sapata em pantufo.

Ao passar lhe disse
Pela requebrar:
Senhora Isabel
Quem fora goraz!

Fizera-lhe eu logo
Depressa um Soneto,
Porque de Poeta
Tenho meus dous dedos.

Porém neste passo
Entrou Bastião,
Pedia-me dinheiro,
Dei a tudo de mão.



D. Tomás de Noronha (Poeta português, -1651)

sexta-feira, outubro 17, 2008

Ana Carolina - Eu que não sei quase nada do mar



Foto:Gavin O'neil



Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meios seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer

Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim

Clara, noite rara, nos levando além
da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos
na escuridão

Me agarrei nos seus cabelos
Sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer

Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim



Ana Carolina (Letrista, cantora, compositora brasileira, 1974- )

quarta-feira, outubro 15, 2008

Maria Teresa Horta - Joelho



Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.



Maria Teresa Horta (Escritora Portuguesa, 1937- )

segunda-feira, outubro 13, 2008

João de Deus - Agora!



Foto: Paulo Franco



A luz que dá o teu rosto
É a luz da madrugada,
Mas vi-a quase ao sol posto
De uma vida amargurada…
Tão tarde vi o teu rosto!

Oh! Se na manhã da vida
Me raia logo essa aurora,
Quando folha e flor caída
me embelezara inda agora
O triste arbusto da vida!

Mas andei sempre às escuras…
Por onde nem se lobriga
Luz de estrelas nas alturas,
Quanto mais em face amiga…
Eu andei sempre às escuras!

E agora vendo a beleza
Dessa luz que me alumia,
Não sei se minha tristeza
É mais do que a minha alegria…
Vendo agora essa beleza!



João de Deus (Poeta português, 1830-1896)

quarta-feira, outubro 08, 2008

Gonçalo Crespo - No momento do adeus sucede que os amantes



No momento do adeus sucede que os amantes
Se abraçam, a chorar, com vozes soluçantes.
Força, é força partir; a mão prende-se à mão,
E uma infinda tristeza inunda o coração.

Para nós, meu amor, nessa hora de agonia
Não houve o padecer que as almas excrucia;
Foi grave o nosso adeus e frio, e só agora
é que a dor nos subjuga, e a angústia nos devora.



Gonçalves Crespo (Poeta Português)

segunda-feira, outubro 06, 2008

Almada Negreiros - Homem transportando o cadáver de uma mulher



Quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!



Almada Negreiros (Escritor e poeta português, 1893-1970)
Biografia