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domingo, abril 11, 2010

Cecília Meireles - Personagem

Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo - o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.




Cecília Meireles, in 'Viagem'

segunda-feira, setembro 01, 2008

Jean Narciso - Charuto Cubano



Agradeço ao Jean Narciso os poemas que enviou para o meu mail. Foi um prazer conhecer a sua escrita. Hoje publico o Charuto Cubano.



Fidel Castro (Autor Desconhecido)


A história fuma charuto cubano
Em minha Havana
Eu sou meu comandante-chefe
Mil ventos anunciam falcões
Em direção a minha ilha
Não temo, sou fiel.
Castro qualquer persona.
Minha Havana é maior que Bagdá.



Jean Narciso (Poeta Brasileiro, 1980- )


Pela mão do autor este é um resumo da sua BIOGRAFIA:

Jean Narciso Bispo Moura nasceu na cidade de São Félix, no estado da Bahia, no dia trinta e um de Outubro de mil novecentos e oitenta, radicado em São Paulo, formou-se em pedagogia e filosofia e especializou-se em educação. Reside na grande São Paulo, no município de Itaquaquecetuba. O autor tem dois livros publicado A lupa e sensibilidade (2002) e Setenta e cinco osso para um esqueleto poético (2005). É casado e professor de Filosofia da rede estadual paulista. www.anedotabulgara.blogspot.com


quarta-feira, junho 18, 2008

Paulo Afonso Ramos - Poema Imperfeito



Num fogo rendilhado
entre as brumas e ventos
deixei perdidos os meus momentos
ficaram caídos, esquecidos nos meus dias.
Perdi-me nas aguarelas
entre pincéis e telas
dos poeirentos quadros
entre apertos e alegrias
em que me deixei seduzir
entre estéreis estrias.

Ainda assim, refeito, volto
renovado e sem amarras
para recomeçar o meu caminho.
Nem que lute sozinho
com as minhas garras
sem que tu, imperfeição, que me agarras
possas travar-me, impedir.
Trago-vos um recado
que é este poema sem pecado, inacabado
é dentro dele que vou sempre existir.



Paulo Afonso Ramos (Poeta Português que publica aqui)

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Affonso Romano de Sant'Anna - Reflexivo



Imagem: "Reflection", autor desconhecido.



O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.


Affonso Romano de Sant'Anna (Poeta e Jornalista Brasileiro, 1937- )

domingo, outubro 28, 2007

João Mendonça - Garça Perdida



Foto: Nana Sousa Dias


Anoiteceu
no meu olhar de feiticeira,
de estrela do mar, de céu, de lua cheia,
de garça perdida na areia.
Anoiteceu no meu olhar,
perdi as penas, não posso voar,
deixei filhos e ninhos,
cuidados, carinhos, no mar...
Só sei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim, o mar, a terra inteira!
E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar...
Então, voltarei a cruzar este céu e este mar,
voarei, voarei sem parar á volta da terra inteira!
Ninhos faria de lua cheia e depois,
dormiria na areia...



João Mendonça (Poeta Português)


Cantado por Dulce Pontes

domingo, setembro 23, 2007

Darío Jaramillo Agudello - Poemas de Amor (I)



Este outro que também me habita
talvez proprietário, invasor, quem sabe o exilado neste corpo estranho ou de ambos,
este outro a quem temo e ignoro, felino ou anjo,
este outro que está só sempre que estou só, pássaro ou demónio,
esta sombra de pedra que tem crescido dentro e fora de mim,
eco ou palavra, esta voz que responde quando me perguntam algo,
o dono de meu enredo, o pessimista e o melancólico e o emotivamente alegre,
este outro,
também te ama.




Darío Jaramillo Agudello (Poeta Colombiano)

Tradução Sílvio Persivo.




Poemas de Amor (I)




Ese otro que también me habita
acaso propietario, invasor quizás o exiliado en este cuerpo ajeno o de ambos,
ese otro a quien temo e ignoro, felino o angel,
ese outro que está solo siempre que estoy solo, ave o demônio,
esa sombra de piedra que há crecido em mi adentro y em mi afuera,
eco o palabra, esa voz que responde cuando me preguntan algo,
el dueño de mi embrollo, el pesimista y el melancólico y el inmotivadamente alegre,
ese outro,
tambiém te ama.




Darío Jaramillo Agudello (Poeta Colombiano)

domingo, setembro 16, 2007

Octavio Paz - Toca mi piel



Foto: DA Photography



Toca mi piel, de barro, de diamante,
Oye mi voz em fuentes subterrâneas,
Mira mi boca em esa lluvia oscura,
Mi sexo em esa brusca sacudida
Com que desnuda el aire los jardines.

Toca tu desnudez em la del agua,
Desnúdate de ti, llueve em ti misma,
Mira tus piernas como dos arroyos,
Mira tu cuerpo como um largo rio,
Son dos islãs gemelas tus dos pechos,
Em la noche tu sexo es una estrella,
Alba, luz, rosa entre dos mundos ciegos,
Mar profundo que duerme entre dos mares.

Mira el poder del mundo:
Reconócete ya, al reconocerme.




Octavio Paz (Poeta Mexicano, 1914-1998)

Biografia de Octavio Paz

domingo, agosto 12, 2007

Tarek Eltayeb - The Broken Shadow



I walked upright
until I approached
the walls
of the sleeping houses,
my shadow upright
next to me.
All of a sudden, it broke
on one of the walls.

And it remained broken,
even
when I had retraced my steps
from the walls.
Frightened and careful
I looked around.
Yet, my shadow remained broken
though the path did run straight now.




Tarek Eltayeb (Poeta Sudanês, 1959- )

Biografia de Tarek Eltayeb

domingo, julho 15, 2007

Natália Correia - Auto- Retrato



Foto: André Brito.



Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.



Natália Correia (Poetisa portuguesa, 1923-1993)

domingo, julho 08, 2007

Antero de Quental - Aspiração



Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.

É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece…
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.

Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira…

Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!



Antero de Quental (Poeta português. Ponta Delgada, 1842-1891)

Antero de Quental - O Palácio da Ventura



Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!



Antero de Quental (Poeta português. Ponta Delgada, 1842—1891)

Antero de Quental - Palavras dum Certo Morto



Há mil anos, e mais, que aqui estou morto,
Posto sobre um rochedo à chuva e ao vento:
Não há como eu espectro macilento,
Nem mais disforme que eu nenhum aborto…

Só o espírito vive: vela absorto
Num fixo, inexorável pensamento:
«Morto, enterrado em vida!» o meu tormento
É isto só… do resto não me importo…

Que vivi sei-o eu bem… mas foi um dia,
Um dia só – no outro, a Idolatria
Deu-me um altar e um culto… ai! adoraram-me,

Como se eu fosse alguém! como se a Vida
Pudesse ser alguém!– logo em seguida
Disseram que era um Deus… e amortalharam-me!



Antero de Quental (Poeta português. Ponta Delgada, 1842-1891)

domingo, junho 17, 2007

Alberto Caeiro - Não sei quantas almas tenho



Foto de SiroAnton



Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.



Alberto Caeiro (Poeta Português, 1989-1915)
Heterónimo de Fernando Pessoa (Poeta Português, 1988-1935)

Fernando Pessoa - Quando é que o cativeiro



Quando é que o cativeiro
Acabará em mim,
E, próprio dianteiro,
Avançarei enfim?

Quando é que me desato
Dos laços que me dei?
Quando serei um facto?
Quando é que me serei?

Quando, ao virar da esquina
De qualquer dia meu,
Me acharei alma digna
Da alma que Deus me deu?

Quando é que será quando?
Não sei. E até então
Viverei perguntando:
Perguntarei em vão.



Fernando Pessoa (Poeta Português, 1988-1935)

Fernando Pessoa - Meu coração tardou



Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.

Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.



Fernando Pessoa (Poeta Português, 1988-1935)

domingo, maio 13, 2007

Lavínia Saad - Sou quase eu



Sou quase eu.
Um dia eu ainda
Me preencho. Ah
E como seria apaixonante
Ir um bocadinho além da conta.



Lavínia Saad (Poetisa e tradutora brasileira, autora do Palavrogramas, 1975- )

domingo, abril 15, 2007

Lavínia Saad - A mesa



Entre duas conversas desencontradas
Ele dobra o guardanapo sobre a mesa,
Declara:
Sou um deserto de emoções.
Ninguém ouve. As conversas desencontradas
Prosseguem. Risos e vinhos se sobrepondo,
Uma noite indiscutívelmente engraçada.

Ele encaixa a voz no espaço entre as palavras
(Que só ele entende ser silêncio),
Se diz que está vazio.
Como se devesse sentir-se pleno,
Recheado feito um profiterole,
Cheio como a lua cheia,
A pança redonda do vizinho sebento.

Alguém pausa, reparando na sua
Ausência presente, na sua
Presência ausente.

Ela pausa no meio da risada,
Encaixa a mente no vazio
Que precede os diálogos:
Sou uma ilha de emoções.
Tudo o que tenho
Mal cabe dentro de mim, e ao meu redor,
Há só o vasto e arisco mar.

Lacrado sob vácuo,
Ele não percebe. Aos poucos
Ele vai evaporar na areia.
Aos poucos
Ela vai se afogar na água.

As taças já secas e enfileiradas na estantes,
As gargantas já lavadas do riso,
Daquela conversa jamais-tida
Sobra apenas
Uma pequenina vertigem,
Coisa pra poema.



Rio de Janeiro, Março de 2007

Lavínia Saad (Poetisa e tradutora brasileira, 1975- )

Lavínia Saad - Sermão



Eu, que me deleitava com migalhas,
Hoje cobiço a padaria.



Rio de Janeiro, Março de 2007

Lavínia Saad (Poetisa e tradutora brasileira, 1975- )

domingo, abril 08, 2007

Palavras Recebidas # 3



Quando iniciei este blog, um dos meus desejos, era que, os seus visitantes participassem na sua construção. Pedi comentários e palavras vossas, ou palavras que vocês amem. Pretendia e pretendo que os poemas que publico gerem sentimentos, conversas, discussões e novas palavras. Foi isso que aconteceu com o Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto, de António Lobo Antunes. Depois do poema do Zenite, esta semana recebi um poema do Tó Zé. Muito obrigada aos dois por participarem neste blog.


Foto: Saint (as saint...?) by Zew1920



Nem santo nem lobo
eu que me comovo
por tudo e por nada
vi uma catraia
perdida na rua
só abandonada
vestida ia nua
já mulher-da-vida
não ouvi seus ais
ignorei sua dor
também o seu cheiro
não sei se tem pais
se é filha querida
se precisa de amor
ou apenas dinheiro
segui minha vida
de tudo alheado
ignorei seu fado
não mais a lembrei
até certo dia
ao ler um poema
ao som do Bolero
eu que me comovo
por tudo e por nada
pergunto a mim mesmo
se é isto que quero
eu que me comovo
ignoro o meu povo
nem santo nem lobo


Foto: Aleksander Bochenek



Tó Zé Rodrigues


domingo, abril 01, 2007

Bjork - Play Dead



Foto de Matjaz Slanic



darling stop confusing me
with your wishful thinking
hopeful enbraces
don't you understand?
i have to go through this
i belong to here where
no-one cares and no-one loves
no light no air to live in
a place called hate
the city of fear

i play dead
it stops the hurting
i play dead
and hurting stops

it's sometimes just like sleeping
curling up inside my private tortures
i nestle into pain
hug suffering
caress every ache

i play dead
it stops the hurting



Bjork (Cantora e letrista Islandesa, 1965- )