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domingo, abril 11, 2010

Cecília Meireles - Personagem

Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo - o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.




Cecília Meireles, in 'Viagem'

segunda-feira, outubro 01, 2007

Meisún Saker Al-Kasimi Abu Dhabi - La tremenda ausencia



La manzana del pecho sobre la palma
Los pedazos de la soledad dispersos sobre las colmillas del lecho
Así se despierta la sed
Bajo la mirada de la voluptuosidad
Así se ciega una fosa
Cayendo en el agotamiento
Y los clavos como las flautas
Alivian la tremenda ausencia
Y el cuerpo es relámpago de su soledad.




Meisún Saker Al-Kasimi Abu Dhabi (Poeta dos Emiratos Árabes Unidos, 1958- )

Tradução de Khalid Raissouni

Biografia de Meisún Saker Al-Kasimi Abu Dhabi

domingo, agosto 19, 2007

Maya Angelou - Alone



Lying, thinking
Last night
How to find my soul a home
Where water is not thirsty
And bread loaf is not stone
I came up with one thing
And I don't believe I'm wrong
That nobody,
But nobody
Can make it out here alone.

Alone, all alone
Nobody, but nobody
Can make it out here alone.

There are some millionaires
With money they can't use
Their wives run round like banshees
Their children sing the blues
They've got expensive doctors
To cure their hearts of stone.
But nobody
No, nobody
Can make it out here alone.

Alone, all alone
Nobody, but nobody

Can make it out here alone.

Now if you listen closely
I'll tell you what I know
Storm clouds are gathering
The wind is gonna blow
The race of man is suffering
And I can hear the moan,
'Cause nobody,
But nobody
Can make it out here alone.

Alone, all alone
Nobody, but nobody
Can make it out here alone.




Maya Angelou (Poeta Norte-Americana, 1928- )

Biografia de Maya Angelou

domingo, maio 13, 2007

Lavínia Saad - Estar só



Estar só já não me espanta—
A solidão hoje me é
Contígua.
(Um vaso e a sua sombra).

Companheira espelhada das horas magras,
Sempre muda, reflexiva.
Ouso dizer? Meio
Amiga.

O que temo, justamente, é:
Me acostumar de vez
Com essa tímida
Rapariga.



NY, abril de 2007

Lavínia Saad (Poetisa e tradutora brasileira, Autora do Palavrogramas, 1975- )

domingo, abril 22, 2007

Renato Macedo - Solidão



Foto: Lars Graf



Quando eu morrer, me enterrem ao sol-pôr
No meio do deserto. Sobre a areia,
Disponham uma cruz e uma candeia
E, em seguida, partam, por favor.

Quero ficar sozinho nesta dor,
Neste frio de alma que vagueia
P'los dias que se vão na melopeia
Do silêncio que queima em meu redor.

De entre todas, a luz do firmamento
Uma estrela, em jeito de ternura,
À candeia dará por alimento.

E o vento, varrendo a planura,
Das areias fará assentamento
E mais profunda a minha sepultura.



Renato Macedo (Poeta português)

domingo, março 04, 2007

António Lobo Antunes - Valsa das viúvas da Pastelaria Bénard



Homenagem a Alexandre O'neill



Cada qual de cão ao colo
damos de comer ao cão
chá e migalhas de bolo
pão-de-ló de Alfezeirão.

Arejamos com o leque
calores dos 60 anos
pérolas de pechisbeque
brincos de prata ciganos.

Lá em casa convivemos
com os estalos da mobília
tristes silêncios serenos
doçuras de chá de tília.

Réstias de sol nas janelas
de cortinas desbotadas
candelabros de três velas
retratos das afilhadas.

A crueldade do espelho
vem mostrar-nos de manhã
ruínas de um corpo velho
num casaquinho de lã.

E à cabeceira da cama
o riso do falecido
garante qu'inda nos ama
por trás da placa de vidro.

Ai felicidade perdida
porque a mágoa não tem fundo
o cão ladra contra a vida
nós ladramos contra o mundo.




António Lobo Antunes (Escritor e Poeta português, 1942- )

domingo, setembro 24, 2006

Chico Buarque - Solidão



Foto: sadness by Janesdead


Chico Buarque define solidão


Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência!

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade!

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio!

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente... Isto é um princípio da natureza!

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto e circunstância!

Solidão é muito mais do que isto...

SOLIDÃO é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.



Chico Buarque (Poeta, compositor, cantor brasileiro, 1944- )

Vinicius de Moraes - Solidão



Foto: Looking for love, autor desconhecido.




A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.


A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.



Vinicius de Moraes (Poeta e músico brasileiro, 1913-1980)




António Gedeão - Poema de um homem só




Poema do Homem Só


Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.



António Gedeão (Poeta português, 1906-1997)



Foto: weight of the world by Gilad

Clotilde Nunes Silva - Quadras da minha Solidão



Quadras da minha solidão

Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...


Clotilde Nunes Silva (Poetisa moçambicana, 1925- )



Foto: Tramonto by Rui Daniro

Adair Carvalhais Jr. - Solidão



Foto: Saudade de Maciej Kluziak


entre tuas
pernas há todo um
mundo desconhecido
caminhos escuros

talvez por isto hesite
às vezes
em te
penetrar em teus

lábios escorre
o desejo pros fundos
abismos mas estaco

às portas preso
ao chão das
palavras

tuas mãos confortam porém jamais
confessam os mistérios
dos teus
abraços

assim me impeço de transpor
as ruas
frequentemente
ao teu
lado



Adair Carvalhais Jr. (Poeta brasileiro)



Rainer Maria Rilke - Amor ...



Amor: duas solidões protegendo-se uma à outra.

Rainer Maria Rilke



Foto: Cheek to cheek, by Maggie Heinzel-Neel