quarta-feira, julho 02, 2008

David Mourão-Ferreira - Ilha



Foto: Marlyn Monroe, Autor Desconhecido



Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias



David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)

segunda-feira, junho 30, 2008

Cleri Aparecida Biotto Bucioli - Pousada



Pousa teus sonhos
Nos meus ombros.
O mormaço escorre
No suor de teu cansaço.
Estamos exaustos:
Eu por te esperar,
Tu por não chegares.
Vem.
Espero teu abraço.
Quero-o ardente,
Possuidor.
Frouxos estão
Meus lamentos.
Tardas.
Não queres voltar?
Estás farto de amor,
Ou tens pouco para dar?
Vem.
Preciso de teus beijos
Longos, gananciosos.
Quero sorver vida
Através de tua boca.
Chama-me louca,
Aventureira,
Presa fácil...
Estás indeciso?
Queres uma pousada segura,
Ou não crês nas minhas oferendas?
Vem.
Encontrarás o que procuras:
Casa, conforto, roupa macia,
Comida farta, carinho
E uma cama ardente.
Vem.
Pousa tua teimosia
Na minha solidão.
Vem.
Há sempre uma vaga
Na minha pousada.
Vem.
Espero tua chegada...



Cleri Aparecida Biotto Bucioli (Poetisa Brasileira)

sexta-feira, junho 27, 2008

Ludwig van Beethoven - Carta de Amor


7 de Julho

Bom dia! Todavia, na cama se multiplicam os meus pensamentos em ti, minha amada imortal; tão alegres como tristes, esperando ver se o destino quer ouvir-nos. Viver sozinho é-me possível, ou inteiramente contigo, ou completamente sem ti. Quero ir bem longe até que possa voar para os teus braços e sentir-me num lugar que seja só nosso, podendo enviar a minha alma ao reino dos espíritos envolta contigo. Tu concordarás comigo, tanto mais que conheces a minha fidelidade, e que nunca nenhuma outra possuirá meu coração; nunca, nunca… Oh, Deus! Por que viver separados, quando se ama assim?

Minha vida, o mesmo aqui que em Viena: sentindo-me só, angustiado. Tu, amor, tens-me feito ao mesmo tempo o ser mais feliz e o mais infeliz. Há muito tempo que preciso de uma certeza na minha vida. Não seria uma definição quanto ao nosso relacionamento?… Anjo, acabo de saber que o correio sai todos os dias. E isso me faz pensar que tu receberás a carta em seguida.

Fica tranquila. Contemplando com confiança a nossa vida alcançaremos o nosso objectivo de vivermos juntos. Fica tranquila, queiras-me. Hoje e sempre, quanta ansiedade e quantas lágrimas pensando em ti… em ti… em ti, minha vida… meu tudo! Adeus… queiras-me sempre! Não duvides jamais do fiel coração de teu enamorado Ludwig.

Eternamente teu,
eternamente minha,
eternamente nossos.



Ludwig van Beethoven (Compositor Erudito Alemão, 1770—1827)


quarta-feira, junho 18, 2008

Fui de...




Estarei por estas bandas...



Adeus...e até ao meu regresso!!
Beijinhos a todos.



Paulo Afonso Ramos - Poema Imperfeito



Num fogo rendilhado
entre as brumas e ventos
deixei perdidos os meus momentos
ficaram caídos, esquecidos nos meus dias.
Perdi-me nas aguarelas
entre pincéis e telas
dos poeirentos quadros
entre apertos e alegrias
em que me deixei seduzir
entre estéreis estrias.

Ainda assim, refeito, volto
renovado e sem amarras
para recomeçar o meu caminho.
Nem que lute sozinho
com as minhas garras
sem que tu, imperfeição, que me agarras
possas travar-me, impedir.
Trago-vos um recado
que é este poema sem pecado, inacabado
é dentro dele que vou sempre existir.



Paulo Afonso Ramos (Poeta Português que publica aqui)

sexta-feira, junho 13, 2008

Luís Miguel Nava - As ondas que se encontram



As ondas que se encontram
ainda agora em formação no espírito
dele já não vêm rebentar ao meu.

Por mim não volto a vê-lo, encontros houve
com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.

Já nem sequer dele quero ouvir falar,
saber que se ele
fosse uma cama estaria por fazer nada me traz
agora além de desconforto.



Luís Miguel Nava (Poeta português, 1957- )


quarta-feira, junho 11, 2008

Paulo Afonso Ramos - Momento



Foto: Angela Berlinde



Toco nos teus cabelos de solidão
com os meus dedos enfeitiçados de amor
procurando sentir a tua candura
e encontro-te, incerta, coberta de paixão
postada nua e incrivelmente pura
liberta, assim, de qualquer ignóbil dor.
Toco no teu rosto cândido
de uma imensa expressão
reflectido, por vezes, perdido
outras vezes lavado em emoção.
Toco no teu corpo sedento
construindo o nosso momento
que guardaremos no baú da recordação.
Toco num só corpo onde cresce o querer
confundo os corpos unidos pela vida
somos um só para amadurecer.
Cruzados num tempo da razão
descobrimos um só caminho
e é nesse momento que o percorremos devagarinho.



Paulo Afonso Ramos (Poeta Português que publica aqui)

segunda-feira, junho 09, 2008

Octavio Roggiero Neto - Kama Sutra



nada como a nossa cama
pra inventarmos louco abraço:
é nela que a gente se ama,
confundindo perna e braço.



Octavio Roggiero Neto (Poeta brasileiro que publica aqui)

sexta-feira, junho 06, 2008

Sara Silva - A minha vida é uma odisseia



A minha vida é uma odisseia, uma cruzada
Na busca da essência perfeita,
Do beijo avassalador, do brilho vibrante,
Do coração de propulsão extrema,
Da alma gémea também ela incompleta.

Procurei entre amigos e conhecidos
Numa busca sem fim nem sentido.
Sonhei com o dia em que nos encontrávamos
E juras de amor trocávamos.
Cansei-me de falar de ti ao mar,
De contar ao sol como te amo
E de pedir ás estrelas conforto
Por não te ter a meu lado.

Não te conheço, mas sei que um dia
O destino te trará até mim.
E só nesse momento poderei dizer
A palavra: AMO-TE!!!!



Sara Silva (Poetisa portuguesa, 1990- )

quarta-feira, junho 04, 2008

Jorge Gaitán Durán - AMANTES II



Desnudos afrentamos el cuerpo
como dos ángeles equivocados,
como dos soles rojos en un bosque oscuro,
como dos vampiros al alzarse el día,
labios que buscan la joya del instante entre dos muslos,
boca que busca la boca, estatuas erguidas
que en la piedra inventan el beso
sólo para que un relámpago de sangres juntas
cruce la invencible muerte que nos llama.
De pie como perezosos árboles en el estío,
sentados como dioses ebrios
para que me abrasen en el polvo tus dos astros,
tendidos como guerreros de dos patrias que el alba separa,
en tu cuerpo soy el incendio del ser.



Amantes II


Despidos enfrentamos o corpo
Como dois anjos equivocados,
Como dois sóis roxos num bosque escuro,
Como dois vampiros ao se fazer o dia,
Lábios que buscam a jóia do instante entre dois músculos,
Boca que busca a boca, estátuas erguidas
Que na pedra inventam o beijo
Somente para que um relâmpago de sangue juntas
Cruze a invencível morte que nos chama.
De pé como pesarosas árvores no estio,
Sentados como deuses ébrios
Para que me abracem como um polvo teus dois astros,
Estendidos como guerreiros de duas pátrias que o amanhecer separa,
No teu corpo sou o incêndio do ser.



Jorge Gaitán Durán (Poeta Colombiano, 1924-1954)

Tradução: Silvio Persivo

sexta-feira, maio 30, 2008

António Salvado - Antinomias



Prendes num dia o que desligas noutro,
e entre o não e o sim não há meio termo:
o passo dado em frente com desvelo
revolta após por pouco duradouro.

Negas agora mas depois afirmas
e quando afirmas saberás negar:
ponteiro de um relógio que não gira
e quando gira é como se parasse.

Um cão fiel à infidelidade:
um infiel fazendo a guerra santa
com tanta santidade e temperança
que se desdiz ao prosseguir p'ra trás.



António Salvado (Poeta, ensaísta, antologiador, crítico, director de publicações português)

segunda-feira, maio 26, 2008

Adriana Calcanhoto - Vambora







Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Prá mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva...

Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz...

Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas...



Adriana Calcanhotto (Cantora, compositora e letrista brasileira, 1965- )

quarta-feira, maio 21, 2008

Sílvia Chueire - há um corpo



Foto: Nikola Borissov



há um corpo à tua espera
um corpo e um conjunto de signos
nas mãos espalmadas
a te oferecerem o riso,
as avencas na pele,
o perfume.

há um corpo, um copo de vinho
ao pé da lareira,
no silêncio do lume.



Silvia Chueire (Poeta e psiquiatra brasileira, autora do blog In The Meadow)

segunda-feira, maio 19, 2008

Carlos Drummond de Andrade - O chão é cama



O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.



Carlos Drummond de Andrade (Poeta Brasileiro, 1902-1987)

sexta-feira, maio 16, 2008

Lara Santos - Hoje a noite não tem fim.

Hoje a noite não tem fim.
Os minutos não passam,
Choram a tua ausência...
Sobrevivem apenas numa vaga melodia,
Que os embala e ao mesmo tempo os atrasa...

Dentro de mim ainda te oiço
Pois regresso aos caminhos
Por onde passaram os ecos perdidos da tua voz,
E por onde os teus olhos tranquilos
Deixaram os claros silêncios entre nós...

Vens no canto das aves, na espuma das ondas
És o canto do vento, luzes e sombras
Moves o ar em redor...
És a musica suave, o meu segredo mais querido
A minha dor no sustento,és o meu porto de abrigo,
És a memória do amor....guardo-te.




Lara Santos

quarta-feira, maio 14, 2008

Joaquim Pessoa - Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo



Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.



Joaquim Pessoa (Poeta português, 1948- )

segunda-feira, maio 12, 2008

Bruno Kampel - Mulher



Foto: Sigourney Weaver, Autor desconhecido



Não quero uma mulher
Que seja gorda ou magra
Ou alta ou baixa
Ou isto e aquilo.

Não quero uma mulher
Mas sim um porto, uma esquina
Onde virar a vida e olhá-la
De dentro para fora.

Não espero uma mulher
Mas um barco que me navegue
Uma tempestade que me aflija
Uma sensualidade que me altere
Uma serenidade que me nine.

Não sonho uma mulher
Mas um grito de prazer
Saindo da boca pendurada
No rosto emoldurado
No corpo que se apoie
Nas pernas que me abracem.

Não sonho nem espero
Nem quero uma mulher
Mas exijo aos meus devaneios
Que encontrem a única
Que quero sonho e espero
Não uma, mas ela.

E sei onde se esconde
E conheço-lhe as senhas
Que a definem. O sexo
Ardente, a volúpia estridente
A carência do espasmo
O Amor com o dedo no gatilho.

Só quero essa mulher
Com todos seus desertos
Onde descansar a minha pele
Exausta e a minha boca sedenta
E a minha vontade faminta
E a minha urgência aflita
E a minha lágrima austera
E a minha ternura eloquente.

Sim, essa mulher que me excite
Os vinte e nove sentidos
A única a saber
O que dizer
Como fazer
Quando parar
Onde Esperar.

Essa a mulher que espero
E não espero
Que quero e não quero
Essa mulherportoesquina
Que desejo e não desejo
Que outro a tenha.

Que seja alta ou baixa
Isto ou aquilo
Mas que seja ela
Aquela que seja minha
E eu seja dela
Que seja eu e ela
Euela eu lá nela
Que sejamos ela.

E eu então terei encontrado
A mulher que não procuro
O barco, a esquina, Você.
Sim, você, que espreita
Do outro lado da esquina, no cais,
A chegada do marinheiro
Como quem apenas me espera.



Então nos amarraremos sem vergonha
À luz dos holofotes dos teus olhos,
E procriaremos gritos e gemidos
Que iluminarão todas as esquinas.

Será o momento de dizer
Achei/achamos amei/amamos
E por primeira vez vocalizar o
Somos, pluralizando-nos
Na emoção do encontro.

Essa a mulher
que não procuro
nem espero.
Você, viu? Você!



Bruno Kampel (Analista Político, Poeta e Escritor Brasileiro, 1944- )

sexta-feira, maio 09, 2008

Bruno Kampel - Dizer



Dizer
Sem Palavras
Amar
sem vírgulas
Sofrer
sem sintaxe
Viver
sem Parêntese
Sublinhando
o gesto
Acentuando
o tempo.
Conjugando
o resto.



Bruno Kampel (Analista Político, Poeta e Escritor Brasileiro, 1944- )

quarta-feira, maio 07, 2008

Líria Porto - (des)conecta



a tua e a minha pele
assim como nossas almas
fazem um tal encaixe
que às vezes eu me pergunto
porque o céu nos nega
a eternidade
desta engrenagem

quando não vens
quando me faltas
fico a vasculhar segredos
a entrelaçar meus medos
nos teus recados



Líria Porto (Poetisa brasileira que publica aqui)

segunda-feira, maio 05, 2008

Líria Porto - Migalhas




procuro-te entre as pessoas
encontro uns pedaços
ora numa ora noutra
um olhar um dar de ombros
recolho os retalhos
guardo-os em segredo
pois morro de medo
de te perder



Líria Porto (Poetisa brasileira que publica aqui)

quarta-feira, abril 30, 2008

Bruno Kampel - Si tú vienes...



Si tú vienes...
...esta noche seremos
un canto gregoriano
un azul mediterráneo
un esfuerzo sobrehumano
un camino y sus esquinas
un bolero y sus compases
un deseo que la noche
huela a vino y tenga cuerpo
y el encuentro sea un pacto
y toque el alma.

Si tú quieres...
...esta noche tendremos
nuestra piel declamando sudores
nuestros dedos tocando calores
nuestras bocas oliendo sabores
nuestra urgencia exigiendo clamores
nuestra cama rezando promesas
nuestros gritos mostrando el camino
nuestras gotas llegando a destino.

Si tú dejas...
...esta noche veremos
los silencios cantando sin sonido
las palabras temblando sin descanso
las estrellas gimiendo sin verguenza
la emoción declamando dulcemente
la canción galopando sin montura
el amor dibujando sus urgencias
elocuencias inclemencias y dolencias.

Si lo pides...
...esta noche será entonces
un planeta sin fronteras
la pregunta y su respuesta
dos amantes y sus juegos
una búsqueda sin miedo
un encuentro de mutantes sin prejuicios
conjugando grito y eco
ojo y brillo día y luna
noche y playa sol y sombra
el desierto y sus camellos
vela y viento
cruz y espada.

Esta noche
no lo dudes!....

Si tú vienes
y me quieres...
Si tú dejas
y lo pides...



Bruno Kampel (Analista Político, Poeta e Escritor Brasileiro, 1944- )

segunda-feira, abril 28, 2008

Bernardete Costa - bebo-te…como água que rebenta das fontes



aqui tens a minha sede. as águas dos rios
somente satisfazem a urgência maior
e nada diz de ti esse líquido que a sede sacia:
queria beber-te nas ondas do teu ciúme
e despedaçar-me no desejo dos teus lábios
queria alcançar a nuvem e colher a rebeldia
das gotas exaltantes dos teus beijos
queria a ribeira da tua pele como a água
que rebenta das fontes
e unidos na mesma sede alcançar o êxtase
na cintilação dos mesmos horizontes
queria o incêndio escrito na mesma sede
e morrer no martírio de doçuras de amante

aqui tens a minha sede: fogo e água da tua boca
ardendo no azul duma água murmurante.



Bernardete Costa (Poetisa portuguesa, 1949- )

sexta-feira, abril 25, 2008

José Niza - E Depois do Adeus




Interpretação: Paulo de Cravalho / Música: José Calvário



Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós



José Niza (Médico, compositor, letrista e político português, 1938- )

E Depois do Adeus ficou para a história de Portugal como a música que deu sinal de avanço aos militares que realizaram a Revolução dos Cravos, contra a ditadura do Estado-Novo, a 25 de Abril de 1974.


segunda-feira, abril 21, 2008

Ary dos Santos - Cavalo à solta



Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.



Ary dos Santos (Poeta português, 1937-1984)

Cavalo à Solta foi musicado e interpretado por Fernando Tordo e ganhou o Festival da Canção em 1971.




sexta-feira, abril 18, 2008

Renata Vilella - Deficiências



"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.

"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome,
de miséria. E só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um
amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

"Paralítico" é quem não consegue andar na direcção daqueles que precisam de sua ajuda.

"Diabético" é quem não consegue ser doce.

"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois "Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus.



Renata Vilella (Professora Brasileira)

quarta-feira, abril 16, 2008

Henry Ward Beecher - Pensamento




"It is not what we read, but what we remember that makes us learned. It is not what we intend but what we do that makes us useful. And, it is not a few faint wishes but a lifelong struggle that makes us valiant."



Henry Ward Beecher (Sacerdote, orador e escritor americano, 1813-1887)


quarta-feira, abril 09, 2008

Nuno Júdice - Braille



Foto: Norbert Guthier



Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.




Nuno Júdice (Escritor e Poeta português, 1949- )

segunda-feira, abril 07, 2008

Líria Porto - Num ímpeto



num ímpeto
deitei sobre teu corpo
meu casaco

é inverno
veste-me com teus braços
dá-me conforto




Líria Porto (Poetisa brasileira que publica aqui)

sexta-feira, abril 04, 2008

Martin Luther King - I Have a Dream!






I am happy to join with you today in what will go down in history as the greatest demonstration for freedom in the history of our nation.

Five score years ago, a great American, in whose symbolic shadow we stand today, signed the Emancipation Proclamation. This momentous decree came as a great beacon light of hope to millions of Negro slaves who had been seared in the flames of withering injustice. It came as a joyous daybreak to end the long night of their captivity.

But one hundred years later, the Negro still is not free. One hundred years later, the life of the Negro is still sadly crippled by the manacles of segregation and the chains of discrimination. One hundred years later, the Negro lives on a lonely island of poverty in the midst of a vast ocean of material prosperity. One hundred years later, the Negro is still languishing in the corners of American society and finds himself an exile in his own land. So we have come here today to dramatize a shameful condition.

In a sense we have come to our nation's capital to cash a check. When the architects of our republic wrote the magnificent words of the Constitution and the Declaration of Independence, they were signing a promissory note to which every American was to fall heir. This note was a promise that all men, yes, black men as well as white men, would be guaranteed the unalienable rights of life, liberty, and the pursuit of happiness.

It is obvious today that America has defaulted on this promissory note insofar as her citizens of color are concerned. Instead of honoring this sacred obligation, America has given the Negro people a bad check, a check which has come back marked "insufficient funds." But we refuse to believe that the bank of justice is bankrupt. We refuse to believe that there are insufficient funds in the great vaults of opportunity of this nation. So we have come to cash this check — a check that will give us upon demand the riches of freedom and the security of justice. We have also come to this hallowed spot to remind America of the fierce urgency of now. This is no time to engage in the luxury of cooling off or to take the tranquilizing drug of gradualism. Now is the time to make real the promises of democracy. Now is the time to rise from the dark and desolate valley of segregation to the sunlit path of racial justice. Now is the time to lift our nation from the quick sands of racial injustice to the solid rock of brotherhood. Now is the time to make justice a reality for all of God's children.

It would be fatal for the nation to overlook the urgency of the moment. This sweltering summer of the Negro's legitimate discontent will not pass until there is an invigorating autumn of freedom and equality. Nineteen sixty-three is not an end, but a beginning. Those who hope that the Negro needed to blow off steam and will now be content will have a rude awakening if the nation returns to business as usual. There will be neither rest nor tranquility in America until the Negro is granted his citizenship rights. The whirlwinds of revolt will continue to shake the foundations of our nation until the bright day of justice emerges.

But there is something that I must say to my people who stand on the warm threshold which leads into the palace of justice. In the process of gaining our rightful place we must not be guilty of wrongful deeds. Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred.

We must forever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline. We must not allow our creative protest to degenerate into physical violence. Again and again we must rise to the majestic heights of meeting physical force with soul force. The marvelous new militancy which has engulfed the Negro community must not lead us to a distrust of all white people, for many of our white brothers, as evidenced by their presence here today, have come to realize that their destiny is tied up with our destiny. They have come to realize that their freedom is inextricably bound to our freedom. We cannot walk alone.

As we walk, we must make the pledge that we shall always march ahead. We cannot turn back. There are those who are asking the devotees of civil rights, "When will you be satisfied?" We can never be satisfied as long as the Negro is the victim of the unspeakable horrors of police brutality. We can never be satisfied, as long as our bodies, heavy with the fatigue of travel, cannot gain lodging in the motels of the highways and the hotels of the cities. We cannot be satisfied as long as the Negro's basic mobility is from a smaller ghetto to a larger one. We can never be satisfied as long as our children are stripped of their selfhood and robbed of their dignity by signs stating "For Whites Only". We cannot be satisfied as long as a Negro in Mississippi cannot vote and a Negro in New York believes he has nothing for which to vote. No, no, we are not satisfied, and we will not be satisfied until justice rolls down like waters and righteousness like a mighty stream.

I am not unmindful that some of you have come here out of great trials and tribulations. Some of you have come fresh from narrow jail cells. Some of you have come from areas where your quest for freedom left you battered by the storms of persecution and staggered by the winds of police brutality. You have been the veterans of creative suffering. Continue to work with the faith that unearned suffering is redemptive.

Go back to Mississippi, go back to Alabama, go back to South Carolina, go back to Georgia, go back to Louisiana, go back to the slums and ghettos of our northern cities, knowing that somehow this situation can and will be changed. Let us not wallow in the valley of despair.

I say to you today, my friends, so even though we face the difficulties of today and tomorrow, I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream.

I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal."

I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.

I have a dream today.

I have a dream that one day, down in Alabama, with its vicious racists, with its governor having his lips dripping with the words of interposition and nullification; one day right there in Alabama, little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls as sisters and brothers.

I have a dream today.

I have a dream that one day every valley shall be exalted, every hill and mountain shall be made low, the rough places will be made plain, and the crooked places will be made straight, and the glory of the Lord shall be revealed, and all flesh shall see it together.

This is our hope. This is the faith that I go back to the South with. With this faith we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope. With this faith we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood. With this faith we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to stand up for freedom together, knowing that we will be free one day.

This will be the day when all of God's children will be able to sing with a new meaning, "My country, 'tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing. Land where my fathers died, land of the pilgrim's pride, from every mountainside, let freedom ring."

And if America is to be a great nation this must become true. So let freedom ring from the prodigious hilltops of New Hampshire. Let freedom ring from the mighty mountains of New York. Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania!

Let freedom ring from the snowcapped Rockies of Colorado!

Let freedom ring from the curvaceous slopes of California!

But not only that; let freedom ring from Stone Mountain of Georgia!

Let freedom ring from Lookout Mountain of Tennessee!

Let freedom ring from every hill and molehill of Mississippi. From every mountainside, let freedom ring.

And when this happens, when we allow freedom to ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God's children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old Negro spiritual, "Free at last! free at last! thank God Almighty, we are free at last!"




Dr. Martin Luther King, Jr. (Pastor e activista político; Prémio Nobel da Paz em 1964, 1929-1968)

segunda-feira, março 24, 2008

Mafalda Veiga - No fundo dos teus olhos



Tu és a luz
Sentida nos luares do firmamento
Tu és o fogo
Que nos acende a alma num momento
Dentro da noite
Há uma chama mágica a brilhar
Que te enfeitiça
E ilumina o teu corpo a dançar

Tu és a cor
Por dentro das palavras que navegam
És o calor
De tudo o que te dão e que te negam
O brilho intenso de um olhar
Um sol que se acendeu
A pulsação do mundo
A vida inteira
A desejar o que se perdeu

À procura
À procura de um sonho
À procura
À procura de ti
Há um mar escondido
No fundo dos teus olhos
Que te leva
Pra tão longe daqui




Mafalda Veiga (Poeta e cantora portuguesa, 1965- )