terça-feira, janeiro 29, 2008

Alberto Pimenta - Obra Carnal



ajoelha com a cabeça pousada
de lado as pernas abertas os
lábios palpitando na orla da
fresta abrasadora deixando e
ntrever o claro fundo coralí
ceo com os joelhos roçando n
o queixo e abrindo lentamet
e os dedos dos pés enquanto
eu vou penetrando de várias
maneiras ociosamente até sen
tir a caudalosa corrente de
bens espraiando-se como a via
láctea nas negras e eternas
muralhas do universo visível




Alberto Pimenta (Escritor, poeta e ensaísta português, 1937- )

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Antoine de Saint-Exupéry - Excerto de "O Principezinho"




Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma fera. Eis a cópia do desenho.

Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão."

Reflecti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim:

Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.

Respondera-me: "Por que é que um chapéu faria medo?"

Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. Meu desenho número 2 era assim:

As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando.

Tive pois de escolher uma outra profissão e aprendi a pilotar aviões. Voei, por assim dizer, por todo o mundo. E a geografia, é claro, me serviu muito. Sabia distinguir, num relance, a China e o Arizona. É muito útil, quando se está perdido na noite.

Tive assim, no decorrer da vida, muitos contactos com muita gente séria. Vivi muito no meio das pessoas grandes. Vi-as muito de perto. Isso não melhorou, de modo algum, a minha antiga opinião.

Quando encontrava uma que me parecia um pouco lúcida, fazia com ela a experiência do meu desenho número 1, que sempre conservei comigo. Eu queria saber se ela era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: "É um chapéu". Então eu não lhe falava nem de jibóias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu alcance. Falava-lhe de bridge, de golfe, de política, de gravatas. E a pessoa grande ficava encantada de conhecer um homem tão razoável.



Excerto de "O Principezinho" de Antoine de Saint-Exupéry (Escritor, ilustrador e piloto francês, 1900-1944)


Carlos Alfredo Coto Amaral - Convite



Convido-te
(ao ouvido)
em carícia de vento
sob o teu corpo
de borboleta,
voando
no vale... tudo...
da sedução.



Carlos Alfredo Couto Amaral (Poeta português)

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Teresa Balté - Beija-me



Beija-me
Sobre a areia fria, húmida do mar,
No sal da espuma alada
Que afaga de onda em onda os nossos pés,
No cintilar das estrelas álgidas, solitárias na noite,
Sobre os ossos lisos de corpos esfacelados e sangrentos.
Ajuda-me a lutar,
Envolve-me em teus braços
E deixa-me chorar a minha solidão
E a tua.




Teresa Balté (Poetisa Portuguesa, 1942- )

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Leila Míccolis - Ponto de vista



Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes



Leila Míccolis (Poetisa Brasileira, 1947- )

quarta-feira, janeiro 16, 2008

José Luis Peixoto - Amor



Foto: Autor desconhecido



Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.


José Luís Peixoto

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Adelaide de Castro Alves Guimarães - Amor é um carpinteiro



Amor é um carpinteiro
Que ri com ar de matreiro,
Cerrando forte e ligeiro
Na tenda do coração...
Com toda a proficiência
Põe pregos de resistência,
Ferrolhos na consciência,
Tranca as portas da razão



Adelaide de Castro Alves Guimarães (Poetisa brasileira, 1854 - 1940)

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Vinicius de Moraes - O grande amor



Haja o que houver
Há sempre um homem para uma mulher
E há de sempre haver
Para esquecer um falso amor
E uma vontade de morrer

Seja como for
Há de vencer o grande amor
Que há de ser no coração
Como um perdão pra quem chorou



Vinicius de Moraes (Poeta e músico brasileiro, 1913-1980)

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Jorge Sousa Braga - Sono de Primavera



Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas




Jorge Sousa Braga (Médico e poeta português, 1957- )

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Fiama Hasse Pais Brandão - Amor é o olhar total, que nunca pode



Foto: Luisa Corna, Autor desconhecido.



Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre à água.



Fiama Hasse Pais Brandão (Poetisa, dramaturga, ficcionista e ensaísta portuguesa, 1938- )

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Manuel António Pina - Amor como em casa



Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.




Manuel António Pina (Jornalista, escritor e poeta português, 1943- )

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Maria do Rosário Pedreira - Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas



Foto: Emmanuelle Beart, autor desconhecido.



Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o
verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.




Maria do Rosário Pedreira (Escritora e poetisa portuguesa, 1959- )