Palavras que me tocam...

Criei este blog para registar os meus poemas e textos favoritos. Estas são as palavras que me tocam e que, de algum modo, influenciaram ou influenciam os meus pensamentos e a minha vida. Estou sempre disponível para ouvir e sentir o toque de novas palavras, por isso aceito todas as contribuições que queiram fazer (palavras.tocam@netcabo.pt). Novas palavras nos tocarão todas as Segundas, Quartas e Sextas-feiras. Sintam-nas.

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

Stand-by

Caro(a)s amigo(a)s

Por motivos de falta de disponibilidade este blog vai ficar uns tempos em Stand-by.

Obrigada pela vossa presença.

Até Breve.

Susana.

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

João Cabral do Nascimento - Cantiga



Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.



João Cabral do Nascimento (Poeta português, 1887-1978)

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

Cecília Meireles - Canção do Amor-Perfeito






O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.



Cecília Meireles (Poetisa brasileira, 1901-1964)

Quarta-feira, Outubro 22, 2008

D. Tomás de Noronha - A uma Regateira



ENDECHAS

Do mesmo D. Thomás
A Minha Isabel
Saiu esta tarde
A matar de amores,
A vender gorazes.

Deitada ao pescoço
A beatilha leva,
Pois de desprezar
Somente se preza,

Por fresco apregoa.
O peixe, meu bem,
E no apregoar fresco
Quanto sal que tem!

Gadelhinhas louras,
Que pelas gadelhas
A minha alma anda
Pendurada nelas.

Em continhas brancas
Extremos vermelhos,
Porém como ela
Não há tal extremo.

Memória de prata
Metida no dedo,
Vá-se embora o ouro,
Que não tem tal preço.

Sainha de pano,
Barra de veludo,
Mantilha vermelha,
Sapata em pantufo.

Ao passar lhe disse
Pela requebrar:
Senhora Isabel
Quem fora goraz!

Fizera-lhe eu logo
Depressa um Soneto,
Porque de Poeta
Tenho meus dous dedos.

Porém neste passo
Entrou Bastião,
Pedia-me dinheiro,
Dei a tudo de mão.



D. Tomás de Noronha (Poeta português, -1651)

Sexta-feira, Outubro 17, 2008

Ana Carolina - Eu que não sei quase nada do mar



Foto:Gavin O'neil



Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meios seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer

Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim

Clara, noite rara, nos levando além
da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos
na escuridão

Me agarrei nos seus cabelos
Sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer

Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim



Ana Carolina (Letrista, cantora, compositora brasileira, 1974- )

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Maria Teresa Horta - Joelho



Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.



Maria Teresa Horta (Escritora Portuguesa, 1937- )

Segunda-feira, Outubro 13, 2008

João de Deus - Agora!



Foto: Paulo Franco



A luz que dá o teu rosto
É a luz da madrugada,
Mas vi-a quase ao sol posto
De uma vida amargurada…
Tão tarde vi o teu rosto!

Oh! Se na manhã da vida
Me raia logo essa aurora,
Quando folha e flor caída
me embelezara inda agora
O triste arbusto da vida!

Mas andei sempre às escuras…
Por onde nem se lobriga
Luz de estrelas nas alturas,
Quanto mais em face amiga…
Eu andei sempre às escuras!

E agora vendo a beleza
Dessa luz que me alumia,
Não sei se minha tristeza
É mais do que a minha alegria…
Vendo agora essa beleza!



João de Deus (Poeta português, 1830-1896)

Quarta-feira, Outubro 08, 2008

Gonçalo Crespo - No momento do adeus sucede que os amantes



No momento do adeus sucede que os amantes
Se abraçam, a chorar, com vozes soluçantes.
Força, é força partir; a mão prende-se à mão,
E uma infinda tristeza inunda o coração.

Para nós, meu amor, nessa hora de agonia
Não houve o padecer que as almas excrucia;
Foi grave o nosso adeus e frio, e só agora
é que a dor nos subjuga, e a angústia nos devora.



Gonçalves Crespo (Poeta Português)

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

Almada Negreiros - Homem transportando o cadáver de uma mulher



Quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!



Almada Negreiros (Escritor e poeta português, 1893-1970)
Biografia

Segunda-feira, Setembro 29, 2008

Natália Bonito - Apaixonantes Sensações



Arde em mim a sensação
Dos minutos sem fim
Como se tudo fosse inspiração
Doce, com sabor a jasmim,
Como se eu fosse alma e coração
E tu pedaço de mim.

Clamo a evidência perfeita
Dos abraços ancorados
Na submissão desfeita
Pelo poder dos corpos suados
Que em cada palavra eleita
Oferecem poemas amados.

Olho o infinito da escuridão
Nesta noite de calmaria,
E sonho com a tua mão
Estendida na periferia
Do meu latente coração
Num gesto de sintonia.

Por instantes, sinto o teu respirar
Bem perto da liberdade
Que a minha mente teima em traçar
Com purpurina e vaidade
Na esperança de ver chegar
O momento da feliz verdade.

E vejo-te, ao longe, a sorrir…
Aproximas-te com lentos passos
Regateando as flores por abrir
Com gestos delicados e rasos
Que fazem lembrar notas a cair
Na pauta musical dos abraços.

És tu, apaixonante,
A vida do meu respirar;
És tu, meu amante,
Alma límpida por amar,
Rosto marcante
Que teima em ficar.



Natália Bonito (Poetisa portuguesa que publica no Estradas Repletas)

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

Irene Cordeiro Pereira - Alforria



Foto: Nuno Belo



Não gosto de imposições
Nem de teorias
Nem de bajulações

Não gosto de prisões
Nem de gaiolas
Nem de grandes salões
Nem de grandes figurões

Não gosto de filosofias
Nem de certezas
Nem de realezas
Não tenho fobias

Gosto de rir com gosto
Do sol no rosto
da praia marinha quando
é Agosto

Da lua na rua
Do quente do lar
de te sentir meu par
quando a palavra é nua

Gosto dos meus botões
quando rimam com as minhas solidões

E gosto do meu quintal
coisa só minha
feudo meu ser
onde sou rainha...



Irene Cordeiro Pereira (Professora e Poetisa portuguesa que publica aqui, 1968- )


Biografia Breve pela mão da Autora

Chamo-me Irene Cordeiro Pereira, tenho quarenta anos, sou professora de português e francês, moro em Porto de Mós, no distrito de Leiria. Sempre adorei ler, mas só comecei a escrever poesia aos quarenta! Pensei que não conseguia!


Quarta-feira, Setembro 24, 2008

Novos livros de Poesia

Caros amigos,

aproveito o meu regresso para agradecer os convites e divulgar o lançamento de dois livros de poesia:


1.º) Paulo Afonso Ramos apresenta "Mínimos Instantes".



O autor e a edium editores têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento deste livro a ter lugar no Auditório da Câmara Municipal da Amadora, dia 27 de Setembro, pelas 15 horas. A apresentação da obra e autor estará a cargo do poeta Xavier Zarco. No decorrer do evento serão declamados poemas do livro por Dionísio Dinis e interpretados trechos musicais por Sandra Rodrigues.

Podem ler dois poemas deste autor no palavras ou visitar o seu blog.


2.º) Natália Bonito apresenta "A Janela deste Mar"



A autora convida-o para o lançamento do seu recente livro de poesia intitulado 'A Janela deste Mar', no dia 27 de Setembro, no auditório do Centro Cultural John dos Passos, pelas 18h. A apresentação do trabalho estará a cargo do escritor António Cruz e haverá um recital de poesia pela mão dos elementos do Grupo de Teatro da Casa do Povo da Ponta do Sol (Ilha da Madeira).

Ainda não publiquei nada da Natália, porque ainda não li muito a sua poesia. No entanto, o que li merece a divulgação do seu trabalho. Mais dia, menos dia publicarei um poema seu. Entretanto, podem conhecê-la melhor através do seu blog Estradas Repletas.

Desejo aos dois poetas muito sucesso e muitas felicidades.

Um abraço grande.

Susana B.

Artur Ribeiro - Já me deixou



A saudade andou comigo
E através do som da minha voz
No seu fado mais antigo
Fez mil versos a falar de nós
Troçou de mim à vontade
Sem ouvir sequer os meus lamentos
E por capricho ou maldade
Correu comigo a cidade
Até há poucos momentos

Já me deixou
Foi-se logo embora
A saudade a quem chamei maldita
Já nos meus olhos não chora
Já nos meus sonhos não grita
Já me deixou
Foi-se logo embora
Minha tristeza chegou ao fim
Já me deixou mesmo agora
Saíu pela porta fora
Ao ver-te voltar para mim

Nem sempre a saudade é triste
Nem sempre a saudade é pranto e dor
Se em paga saudade existe
A saudade não dói tanto amor
Mas enquanto tu não vinhas
Foi tão grande o sofrimento meu
Pois não sabia que tinhas
Em paga ás saudades minhas
Mais saudades do que eu



Artur Ribeiro (Autor e compositor português, 1924-1982)
Biografia aqui

Ouçam este poema em forma de fado no último cd da Mariza.




Segunda-feira, Setembro 08, 2008

Bárbara de Sousa - Violeta de Parma



Sou um vegeto das ruínas. o meu ser
sente o mastigar de cada hora
por entre o céu descoberto.o anoitecer

Vermes rastejam
fogem de mim com asco. bebo o absinto
das lápides murmurantes
dos ciprestes que tornam em silêncio
o lirismo impuro. os sentimentos tépidos
de cada segundo...

Sou filha dum tédio, duma dor qualquer
por entre sonhos horrivelmente histéricos
jardins fastasmagóricos...
e obsessões...
Onde os resquicíos de minh'alma
evaporam como fumaça
e nos meus lábios aflora a tísica
roxa e inefável melancolia...

Sou transparência de morte, magreza hirta.
por entre a palidez clorótica,
desta noite de afronta e solidão
e nos conventos abandonados de minh'alma
sou brilho cru, agudo e febril
sugando os cansaços mornos de uma vida
leve bater de asas de cotovia...

Sobre o vazio, sobre o nada
sou desdenhosa ilusão da eternidade
minha boca acidentada
por entre os dedos esticados
e manchas de realidade.

Sou corpo cadavérico
deixado ao acaso
Sou gravação vaporosa
violeta de Parma
flor dolente e venenosa
Já sinto emurchecer na alma
as pétalas de um sonho...

já eu não sou! ...na cova escura...
já eu não sou!...defunta


(Segundo a autora, este poema bebe das palavras de José Duro, mais especificamente do seu poema "Doente", uma longa confissão de amargura e desespero de um jovem a beira da morte.)



Bárbara de Sousa (Poetisa portuguesa que publica neste blog, 1987- )


Breve Biografia pela mão da Autora

Rafaela Bárbara Faria de Sousa, 21 anos , estudante finalista de Arte e Multimédia na Uma (Universidade da Madeira).Frequentou O Conservatório Escola das Artes onde cultivou o gosto pela música, e pelo seu principal instrumento: Clarinete. A poesia aparece como uma espécie de chamamento na sua vida, sendo a sua área de interesses a Pintura.


Sexta-feira, Setembro 05, 2008

Alexandre O'neill - Há palavras que nos beijam



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.



Alexandre O'neill (Poeta português, 1924-1986)

Este poema foi musicado por Mário Pacheco e cantado na forma de um Fado pela Grande MARIZA.



Quarta-feira, Setembro 03, 2008

Ary dos Santos - Desfolhada



Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.
É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor

filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.

Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.

Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha água e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.

É trigo loiro
é além tejo
o meu país
neste momento
o sol o queima
o vento o beija
seara louca em movimento.

Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.

Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.
Moira escondida
moira encantada
lenda perdida
lenda encontrada.
Oh minha terra
minha aventura
casca de noz
desamparada.
Oh minha terra
minha lonjura
por mim perdida
por mim achada.



Ary dos Santos (Poeta português, 1937-1984)

Escrita em 1968. Foi inicialmente patenteada com o título Desfolhada Portuguesa, modificado pelo autor em 1969 para Desfolhada.
Este poema foi musicado por Nuno Nazareth Fernandes e interpretada por Simone de Oliveira. Concorreu ao Festival da RTP em 1969, obtendo o 1º lugar e foi representar Portugal à Eurovisão.




Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Jean Narciso - Charuto Cubano



Agradeço ao Jean Narciso os poemas que enviou para o meu mail. Foi um prazer conhecer a sua escrita. Hoje publico o Charuto Cubano.



Fidel Castro (Autor Desconhecido)


A história fuma charuto cubano
Em minha Havana
Eu sou meu comandante-chefe
Mil ventos anunciam falcões
Em direção a minha ilha
Não temo, sou fiel.
Castro qualquer persona.
Minha Havana é maior que Bagdá.



Jean Narciso (Poeta Brasileiro, 1980- )


Pela mão do autor este é um resumo da sua BIOGRAFIA:

Jean Narciso Bispo Moura nasceu na cidade de São Félix, no estado da Bahia, no dia trinta e um de Outubro de mil novecentos e oitenta, radicado em São Paulo, formou-se em pedagogia e filosofia e especializou-se em educação. Reside na grande São Paulo, no município de Itaquaquecetuba. O autor tem dois livros publicado A lupa e sensibilidade (2002) e Setenta e cinco osso para um esqueleto poético (2005). É casado e professor de Filosofia da rede estadual paulista. www.anedotabulgara.blogspot.com


Quarta-feira, Agosto 27, 2008

David Mourão-Ferreira - Soneto do Cativo

Foto: Paulo César



Se é sem duvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!



David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)

Segunda-feira, Agosto 25, 2008

Ana Carolina - Nada te faltará



Pra onde vamos
As vans, carros e bicicletas?
Certezas avessas
Comércio de guerra
Legado de merda

Mais de um bilhão de chineses
Marchando sem deuses
E outros descalços
Fazendo sapatos
Pra nobres e ratos

Sobe do solo
A nuvem de óleo com cheiro
De enxofre queimado
Fudendo com os ares
E outras barbáries

Quero mudança total
Uma idéia genial
A ciência e o amor
A favor do futuro
Quero o claro no escuro

Peço paz aos filhos de abraão
Quero gandhi na melhor versão

E nada vai me faltar, e nada te faltará
E nada vai me faltar, e nada te faltará

Pra onde seguem os barcos?
Os homens, suas trilhas
Seus filhos e filhas
No pau da miséria?
Um pico na artéria

As mulheres pedintes perdidas
Que já quase loucas
Dividem o frio da noite
Com as drags
As mães e os "carregues"

Meninas sangrando na boca
E no meio das pernas
No meio da noite
Tomando cacete
Sem dente, sem leite

Quero respeito
Os humanos direitos
Fazendo pensar os pilares
De uma nova era
Que não seja quimera

Peço paz aos filhos de abraão
Quero gandhi na melhor versão

E nada vai me faltar, e nada te faltará
E nada vai me faltar, e nada te faltará



Ana Carolina (Letrista, cantora, compositora brasileira, 1974- )

Regresso

Olá caros amigos,

muito obrigada pelas vossas mensagens. É bom saber que ainda estão por aí. Peço desculpa pela minha ausência. O palavras não fechou, não vai fechar. Esteve em stand-by, porque não tenho tido muito tempo para ler e publicar poesia. No entanto, prometo que vou tentar voltar ao anterior ritmo de publicação.

Um abraço a todos.

Susana B.

Quarta-feira, Julho 09, 2008

Fernando Pessoa - António de Oliveira Salazar



Antonio de Oliveira Salazar.
Trez nomes em sequencia regular...
Antonio é Antonio.
Oliveira é uma arvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

29-03-1935

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Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A agua dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.

Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...

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Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade
E a liberdade,
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné,
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé,
Mas ninguém sabe porquê.

Mas, enfim, é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé:
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.



29-03-1935

Fernando Pessoa (Poeta Português, 1988-1935)

Segunda-feira, Julho 07, 2008

Vitor Hugo - Desejo-te



Desejo primeiro que ames,
E que amando, também sejas amado.
E que se não fores, sejas breve em esquecer.
E que esquecendo, não guardes mágoa.
Desejo, pois, que não sejas assim,
Mas se fores, saibas ser sem desesperar.
Desejo também que tenhas amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Possas confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que tenhas inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exacta para que, algumas vezes,
Te interpeles a respeito
Das tuas próprias certezas.
E que, entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que não te sintas demasiado seguro.
Desejo depois que sejas útil,Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para te manteres de pé.
Desejo ainda que sejas tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Sirvas de exemplo aos outros.
Desejo que, sendo jovem,
Não amadureças depressa demais,
E que sendo maduro, não insistas em rejuvenescer
E que sendo velho, não te dediques ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo também que sejas triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubras
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que descubras,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes e que estão à tua volta.
Desejo ainda que afagues um gato,
Alimentes um cuco e ouças o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, te sentirás bem por nada.
Desejo também que plantes uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhes o seu crescimento,
Para que saibas de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que tenhas dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloques um pouco dele
Na tua frente e digas «Isso é meu!»,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum dos teus afectos morra,
Por ele e por ti,
Mas que se morrer, possas chorar
Sem te lamentares e sofrer sem te culpares.
Desejo por fim que, sendo homem,
Tenhas uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenhas um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a desejar-te.



Vitor Hugo (Poeta e escritor francês, 1802-1885)

Sexta-feira, Julho 04, 2008

Octávio Paz - Rendição



Depois de ter cortado todos os braços que se estendiam para mim; depois de ter entaipado todas as janelas e todas as portas; depois de ter inundado os fossos com água envenenada; depois de ter edificado minha casa num rochedo inacessível aos afagos e ao medo; depois de ter lançado punhados de silêncio e monossílabos de desprezo a meus amores; depois de ter esquecido meu nome e o nome da minha terra natal; depois de me ter condenado a perpétua espera e a solidão perpétua, ouvi contra as pedras de meu calabouço de silogismos a investida húmida, terna, insistente, da Primavera.



Octavio Paz (Poeta Mexicano, 1914-1998)

Quarta-feira, Julho 02, 2008

David Mourão-Ferreira - Ilha



Foto: Marlyn Monroe, Autor Desconhecido



Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias



David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)

Segunda-feira, Junho 30, 2008

Cleri Aparecida Biotto Bucioli - Pousada



Pousa teus sonhos
Nos meus ombros.
O mormaço escorre
No suor de teu cansaço.
Estamos exaustos:
Eu por te esperar,
Tu por não chegares.
Vem.
Espero teu abraço.
Quero-o ardente,
Possuidor.
Frouxos estão
Meus lamentos.
Tardas.
Não queres voltar?
Estás farto de amor,
Ou tens pouco para dar?
Vem.
Preciso de teus beijos
Longos, gananciosos.
Quero sorver vida
Através de tua boca.
Chama-me louca,
Aventureira,
Presa fácil...
Estás indeciso?
Queres uma pousada segura,
Ou não crês nas minhas oferendas?
Vem.
Encontrarás o que procuras:
Casa, conforto, roupa macia,
Comida farta, carinho
E uma cama ardente.
Vem.
Pousa tua teimosia
Na minha solidão.
Vem.
Há sempre uma vaga
Na minha pousada.
Vem.
Espero tua chegada...



Cleri Aparecida Biotto Bucioli (Poetisa Brasileira)

Sexta-feira, Junho 27, 2008

Ludwig van Beethoven - Carta de Amor


7 de Julho

Bom dia! Todavia, na cama se multiplicam os meus pensamentos em ti, minha amada imortal; tão alegres como tristes, esperando ver se o destino quer ouvir-nos. Viver sozinho é-me possível, ou inteiramente contigo, ou completamente sem ti. Quero ir bem longe até que possa voar para os teus braços e sentir-me num lugar que seja só nosso, podendo enviar a minha alma ao reino dos espíritos envolta contigo. Tu concordarás comigo, tanto mais que conheces a minha fidelidade, e que nunca nenhuma outra possuirá meu coração; nunca, nunca… Oh, Deus! Por que viver separados, quando se ama assim?

Minha vida, o mesmo aqui que em Viena: sentindo-me só, angustiado. Tu, amor, tens-me feito ao mesmo tempo o ser mais feliz e o mais infeliz. Há muito tempo que preciso de uma certeza na minha vida. Não seria uma definição quanto ao nosso relacionamento?… Anjo, acabo de saber que o correio sai todos os dias. E isso me faz pensar que tu receberás a carta em seguida.

Fica tranquila. Contemplando com confiança a nossa vida alcançaremos o nosso objectivo de vivermos juntos. Fica tranquila, queiras-me. Hoje e sempre, quanta ansiedade e quantas lágrimas pensando em ti… em ti… em ti, minha vida… meu tudo! Adeus… queiras-me sempre! Não duvides jamais do fiel coração de teu enamorado Ludwig.

Eternamente teu,
eternamente minha,
eternamente nossos.



Ludwig van Beethoven (Compositor Erudito Alemão, 1770—1827)


Quarta-feira, Junho 18, 2008

Fui de...




Estarei por estas bandas...



Adeus...e até ao meu regresso!!
Beijinhos a todos.



Paulo Afonso Ramos - Poema Imperfeito



Num fogo rendilhado
entre as brumas e ventos
deixei perdidos os meus momentos
ficaram caídos, esquecidos nos meus dias.
Perdi-me nas aguarelas
entre pincéis e telas
dos poeirentos quadros
entre apertos e alegrias
em que me deixei seduzir
entre estéreis estrias.

Ainda assim, refeito, volto
renovado e sem amarras
para recomeçar o meu caminho.
Nem que lute sozinho
com as minhas garras
sem que tu, imperfeição, que me agarras
possas travar-me, impedir.
Trago-vos um recado
que é este poema sem pecado, inacabado
é dentro dele que vou sempre existir.



Paulo Afonso Ramos (Poeta Português que publica aqui)

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Luís Miguel Nava - As ondas que se encontram



As ondas que se encontram
ainda agora em formação no espírito
dele já não vêm rebentar ao meu.

Por mim não volto a vê-lo, encontros houve
com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.

Já nem sequer dele quero ouvir falar,
saber que se ele
fosse uma cama estaria por fazer nada me traz
agora além de desconforto.



Luís Miguel Nava (Poeta português, 1957- )


Quarta-feira, Junho 11, 2008

Paulo Afonso Ramos - Momento



Foto: Angela Berlinde



Toco nos teus cabelos de solidão
com os meus dedos enfeitiçados de amor
procurando sentir a tua candura
e encontro-te, incerta, coberta de paixão
postada nua e incrivelmente pura
liberta, assim, de qualquer ignóbil dor.
Toco no teu rosto cândido
de uma imensa expressão
reflectido, por vezes, perdido
outras vezes lavado em emoção.
Toco no teu corpo sedento
construindo o nosso momento
que guardaremos no baú da recordação.
Toco num só corpo onde cresce o querer
confundo os corpos unidos pela vida
somos um só para amadurecer.
Cruzados num tempo da razão
descobrimos um só caminho
e é nesse momento que o percorremos devagarinho.



Paulo Afonso Ramos (Poeta Português que publica aqui)