Sintam-nas...

domingo, setembro 10, 2006

Milan Kundera - (...) deitaram-se de lado na cama.



(…) deitaram-se lado a lado na cama. Ele olhava-a. Ela estava de costas, com a cabeça enterrada no travesseiro, o queixo ligeiramente erguido e os olhos cravados no tecto, e, nessa extrema tensão do seu corpo (ela fazia-o sempre pensar na corda de um instrumento de música e ele dizia-lhe que ela tinha "a alma de uma corda"), viu de súbito, num instante só, toda a sua essência. Sim, acontecia-lhe por vezes (eram momentos miraculosos) captar de súbito, num único dos seus gestos ou dos seus movimentos, toda a história do corpo e da alma dela. Eram instantes de clarividência absoluta, mas também de emoção absoluta; porque esta mulher amara-o quando ela nada era ainda, estivera pronta a sacrificar tudo por ele, compreendia às cegas os seus pensamentos, de tal maneira que ele podia falar-lhe de Armstrong ou de Stravinski, de insignificâncias ou de coisas sérias, enquanto ela continuava a ser sempre para ele o mais próximo de todos os seres humanos…

Depois, imaginou que este corpo adorável, que este rosto adorável, estavam mortos, e disse a si próprio que não poderia sobreviver-lhe um dia que fosse. Sabia que era capaz de a proteger até ao último suspiro, que era capaz de dar a vida por ela.

Mas esta sensação de amor asfixiante não passava de um fraco clarão efémero, porque o espírito dele estava totalmente ocupado pela angústia e pelo medo. Estava deitado ao lado de Kamila, e sabia que a amava infinitamente, mas estava mentalmente ausente como se a acariciasse a uma distância incomensurável, de várias centenas de quilómetros."


in A Valsa do Adeus, de Milan Kundera (Escritor Checo, 1929- ) - Retirado daqui



Foto: Dispair, by Fjärl

6 comentários:

Vultos disse...

...porque a distância me revela o verdadeiro amor, sacrifico-me e penalizo quem me obriga a este distanciamento, partindo quanto antes do México, onde me encontro agora, hoje, para junto do que mais importa, a familia que construí com tanto orgulho e amor...

Susana B. disse...

Vultos,

Bom regresso, :)

r. disse...

É um dos melhores livros de Kundera. Este excerto deu-me vontade de o reler.

karvoeiro disse...

o queixo ligeiramente erguido e os olhos cravados no tecto...

Susana B. disse...

R. e Kar Voeiro,

muito obrigada pela visita. Voltemm sempre.

Um abraço.

sofia marques disse...

oi.tenho 15anos chamo me sofia e sou fã de milan kundera.o seu livro"insustentavel lezeza do ser" retrata a vida d kada um d nos nos dias sequenciais da nossa vida..impressionante como um único ser é kapaz de retratar a vida de uma completa sociedade..o livro fez me derramar lagrimas pensando em como a nossa existencia é curta e alheia ao mundo que nos rodeia..