Sintam-nas...

domingo, novembro 19, 2006

Maria do Céu Guerra - Permitam-me que vos fale...




Foto de Jan Saudek



Permitam-me que vos fale
Estive muito tempo sem falar
Permitam-me que vos transmita algumas ideias
de que estive a meditar.
Existem muitos erros na nossa sociedade
mostram-nos os jornais
Sabem-nos quem os lê
Mulher, mãe, pilar
São três palavras que nos habituámos a associar
Grande erro feminino é querer sair do lar
é perdição dos jovens
é casa em desalinho
desemprego para os homens
mentes em torvelinho!
Facto é, temos só uma vida e esse ser delicado
que nasceu para procriar e ser amado
não pode em cem anos jogar a sua vida num mar de desenganos.
Mulheres tende juízo
para quê entrarmos nós nessa corrida!
Violência contra as mulheres?
Ora se somos nós mesmas em nome da liberdade
que violentamos a nossa felicidade.
Os profetas do ócio ainda não se lembraram de nos mandar para casa; mas esse dia virá...Oxalá! Oxalá!
A verdade é que existe tanta coisa bonita que podemos fazer:
fazer renda, a comida, tratar dos animais, plantar flores.
andar com os filhos ao colo, educá-los para serem os
"Homens" e as "Mulheres" de amanhã.
Violência mulheres é tirarem-nos isto
só porque umas sufragistas loucas, sublinho loucas,
no início do século decidiram
abrir as suas bocas em nome da igualdade.
Igualdade mulheres. Voltemos para o lar e bordemos, enquanto o homem
trabalha para a família.
E agora, neste final de século, com o medo à nossa lepra
é natural que queiram todas casar;
então, se precisam de nós,
arranjem meios de nos sustentar.
Pois "Senhoras", "Meninas"
o tempo das revoluções acabou,
voltemos ao princípio já que nada deu certo,
e com grande emoção diremos:
acabou a balbúrdia, Senhores, respeito!
Passai à frente nas portas, daí aos homens os embrulhos,
exigi os seus lugares nos autocarros, a feitura dos trabalhos
forçados...
Não sejam tolas meninas!
Afinal, o que quisemos ser na vida, na parte, na política?!
Quizemos repartir o trabalho, o poder
Quizemos do homem e da mulher fazer a Humanidade
Como? Somos seres de diferente qualidade!
Oh tolas femininistas, vício dos anos sessenta
Pensai de novo agora que já tendes quarenta!
E agora com as novas tecnologias
E os seus funcionários especializados
Vão trabalhar os homens
Quanto a nós, dêem-nos um subsídio
mas a todas sem excepção:
por sermos delicadas, um subsídio
por sermos filhas, mães, um subsídio
por sermos flores perfumadas, subsídio
por sabermos chorar, apanhar, ir à missa, subsídio
por sermos a metade frágil de uma sociedade em reacção,
subsídio
por sermos as que não sabemos, as que não podemos
por sermos só coração, um subsídio.
E tudo o que ouvimos, dissemos, assumimos neste século
perdido
deve ser simplesmente esquecido!
Que bons tempos nos esperam meninas,
Se formos espertinhas!
Ver os homens como formiguinhas, a mandar sem mulheres no
poder
e nós nas nossas casinhas, muito arranjadas, a obedecer!
"Eles" chegando à noite muito cansados e com as mãos cheias de calos,
e "elas" muito serenas e lindas em casa a respeitá-los.
A respeitá-los e a explorá-los...
É isto mulheres que tendes de acreditar
é isto mulheres que tendes de ensinar.
Para quê encontrarmos meios de camuflar aquilo que é tão
fácil e óbvio de interpretar.
Deixo ao vosso critério todas as conclusões que seja possível
extrair deste discurso.
E obrigado pela vossa atenção!



Texto de Maria do Céu Guerra, apresentado no "Parlamento Alternativo das Mulheres" do MDM. Adaptado e lido por Teresa Granadas.


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