Sintam-nas...
domingo, novembro 18, 2007
Silvia Chueire - Tenho nas mãos o mar
tenho nas mãos o mar
que me ilumina os olhos,
a memória do corpo
a sulcar a água,
da água a navegar-me a pele.
o desejo de ti
a caminhar por mim ontem
como se fosse hoje.
Silvia Chueire (Poeta e psiquiatra brasileira, autora do blog In The Meadow)
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Eugénio de Andrade - Entre os teus lábios
Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923-2005)
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Maria Teresa Horta - Quando se quer
Quando se quer
da distância fazer
perto
Quando se inventa
do outro
a melhor parte
Quando se toma a lonjura
e por certo se tem do incerto
aquilo que não sabe
Quando se inventa na espera
o que adivinha
ser pelo excesso a linha do baraço
Quando a ausência vacila
no silêncio e traz de volta
o fogo no regaço
Maria Teresa Horta (Escritora portuguesa, 1937- )
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Judith Teixeira - Devagar...
Devagar...
outro beijo... ou ainda...
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!
Mais beijos!...
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!
Sim, amor..
deixa que se alongue mais
este momento breve!...
— que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!
Judith Teixeira (Poetisa portuguesa,1880-1959)
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Maria Teresa Horta - Dizer da paixão mais do que o sangue
Dizer da paixão mais do que o sangue
mais do que fogo
trazido ao coração
Mais do que o golpe furtivo já ardendo
revolvendo na seda
a ponta de um arpão
Dizer da febre sem fé
do animal feroz
dos líquens abertos e dos lírios
Dizer desassossego
sem razão
da raiva silvando no delírio
Dizer do prazer o meu gemido
no quanto é ambígua esta prisão
a deixar-me livre no que sinto
e logo envenenada à tua mão
Maria Teresa Horta (Escritora portuguesa, 1937- )
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Carlos Drummond de Andrade - Amor é privilégio de maduros
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
Carlos Drummond de Andrade (Poeta Brasileiro, 1902-1987)
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domingo, novembro 11, 2007
As minhas Palavras... 11 de Novembro de 2007
Caros amigos,
regresso de férias com alguma poesia erótica do grande David Mourão-Ferreira.
Espero que gostem.
Beijinhos.
Susana B.
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David Mourão-Ferreira - Pele
Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele.
David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)
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David Mourão-Ferreira - Tentei fugir da mancha mais escura
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.
David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)
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David Mourão-Ferreira - Canção primaveril
Anda no ar a excitação
de seios súbito exibidos
à turva luz de um alçapão,
por onde os corpos rolarão,
mordidos!
Ou é um deus, ou foi a Morte
que nos vestiu este torpor;
e a Primavera é um chicote,
abrindo as veias e o decote
ao meu amor!
Esqueço que os dedos têm ossos:
é só de sangue esta carícia;
apenas nervos os pescoços...
Mas nos teus olhos, nos meus olhos,
a luz da morte brilha.
David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)
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David Mourão-Ferreira - Os teus olhos
Os teus olhos
exigindo
ser bebidos
Os teus ombros
reclamando
nenhum manto
Os teus seios
pressupondo
tantos pomos
O teu ventre
recolhendo
o relâmpago
David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)
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David Mourão-Ferreira - Praia do Paraíso
Era a primeira
vez que nus os nossos corpos
Apesar da penumbra á vontade se olhavam
Surpresos de saber que tinham tantos olhos
Que podiam ser luz de tantos candelabros
Era a primeira vez cerrados os estores
Só o rumor do mar permanecera em casa
E sabias a sal, e cheiravas a limos
Que tivesses ouvido o canto das cigarras
Havia mais que céu no céu do teu sorriso
Madrugada de tudo em tudo que sonhavas
Em teus braços tocar era tocar os ramos
Que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo
É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
Para se ver que aos vinte é que se teve tudo.
David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)
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David Mourão-Ferreira - Momento
Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre línguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música
David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)
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David Mourão-Ferreira - Sobre mim cavalgas
X
Sobre mim cavalgas
cingindo-me os flancos
Colhes à passagem
a luz do instante
De dentes cerrados
ondulas avanças
retesas os braços
comprimes as ancas
Depois para a frente
inclinas-te olhando
o que entre dois ventres
ocorre entretanto
e o próprio galope
em que vais lançada
Que lua te empolga
Que sol te embriaga
Lua e sol tu és
enquanto cavalgas
amazona e égua
de espora cravada
no centro do corpo
Centauresa alada
com os seios soltos
como feitos de água
Queria bebê-los
quando mais te dobras
Os cabelos esses
sorvê-los agora
Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a língua
A de nos teus olhos
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu
David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)
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David Mourão-Ferreira - Inscrição Estival
Ó grande plenitude!
E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.
Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...
Este cacho de curvas que é o teu corpo.
David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)
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David Mourão-Ferreira - O silêncio
Dos corpos esgotados que silêncio
tão apaziguador se levantava!
(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)
Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.
(Que apertados anéis nos braços nus!)
Mas o silêncio vinha desprendê-los.
David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)
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domingo, novembro 04, 2007
As minhas Palavras... 04 de Novembro de 2007
Este blog foi de férias. As palavras voltam no próximo domingo.
Beijinhos.
Susana B.
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