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sexta-feira, outubro 17, 2008

Ana Carolina - Eu que não sei quase nada do mar



Foto:Gavin O'neil



Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meios seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer

Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim

Clara, noite rara, nos levando além
da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos
na escuridão

Me agarrei nos seus cabelos
Sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer

Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim



Ana Carolina (Letrista, cantora, compositora brasileira, 1974- )

quarta-feira, outubro 15, 2008

Maria Teresa Horta - Joelho



Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.



Maria Teresa Horta (Escritora Portuguesa, 1937- )

quarta-feira, julho 02, 2008

David Mourão-Ferreira - Ilha



Foto: Marlyn Monroe, Autor Desconhecido



Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias



David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)

segunda-feira, junho 09, 2008

Octavio Roggiero Neto - Kama Sutra



nada como a nossa cama
pra inventarmos louco abraço:
é nela que a gente se ama,
confundindo perna e braço.



Octavio Roggiero Neto (Poeta brasileiro que publica aqui)

segunda-feira, maio 19, 2008

Carlos Drummond de Andrade - O chão é cama



O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.



Carlos Drummond de Andrade (Poeta Brasileiro, 1902-1987)

quarta-feira, maio 14, 2008

Joaquim Pessoa - Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo



Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.



Joaquim Pessoa (Poeta português, 1948- )

segunda-feira, maio 12, 2008

Bruno Kampel - Mulher



Foto: Sigourney Weaver, Autor desconhecido



Não quero uma mulher
Que seja gorda ou magra
Ou alta ou baixa
Ou isto e aquilo.

Não quero uma mulher
Mas sim um porto, uma esquina
Onde virar a vida e olhá-la
De dentro para fora.

Não espero uma mulher
Mas um barco que me navegue
Uma tempestade que me aflija
Uma sensualidade que me altere
Uma serenidade que me nine.

Não sonho uma mulher
Mas um grito de prazer
Saindo da boca pendurada
No rosto emoldurado
No corpo que se apoie
Nas pernas que me abracem.

Não sonho nem espero
Nem quero uma mulher
Mas exijo aos meus devaneios
Que encontrem a única
Que quero sonho e espero
Não uma, mas ela.

E sei onde se esconde
E conheço-lhe as senhas
Que a definem. O sexo
Ardente, a volúpia estridente
A carência do espasmo
O Amor com o dedo no gatilho.

Só quero essa mulher
Com todos seus desertos
Onde descansar a minha pele
Exausta e a minha boca sedenta
E a minha vontade faminta
E a minha urgência aflita
E a minha lágrima austera
E a minha ternura eloquente.

Sim, essa mulher que me excite
Os vinte e nove sentidos
A única a saber
O que dizer
Como fazer
Quando parar
Onde Esperar.

Essa a mulher que espero
E não espero
Que quero e não quero
Essa mulherportoesquina
Que desejo e não desejo
Que outro a tenha.

Que seja alta ou baixa
Isto ou aquilo
Mas que seja ela
Aquela que seja minha
E eu seja dela
Que seja eu e ela
Euela eu lá nela
Que sejamos ela.

E eu então terei encontrado
A mulher que não procuro
O barco, a esquina, Você.
Sim, você, que espreita
Do outro lado da esquina, no cais,
A chegada do marinheiro
Como quem apenas me espera.



Então nos amarraremos sem vergonha
À luz dos holofotes dos teus olhos,
E procriaremos gritos e gemidos
Que iluminarão todas as esquinas.

Será o momento de dizer
Achei/achamos amei/amamos
E por primeira vez vocalizar o
Somos, pluralizando-nos
Na emoção do encontro.

Essa a mulher
que não procuro
nem espero.
Você, viu? Você!



Bruno Kampel (Analista Político, Poeta e Escritor Brasileiro, 1944- )

quarta-feira, abril 30, 2008

Bruno Kampel - Si tú vienes...



Si tú vienes...
...esta noche seremos
un canto gregoriano
un azul mediterráneo
un esfuerzo sobrehumano
un camino y sus esquinas
un bolero y sus compases
un deseo que la noche
huela a vino y tenga cuerpo
y el encuentro sea un pacto
y toque el alma.

Si tú quieres...
...esta noche tendremos
nuestra piel declamando sudores
nuestros dedos tocando calores
nuestras bocas oliendo sabores
nuestra urgencia exigiendo clamores
nuestra cama rezando promesas
nuestros gritos mostrando el camino
nuestras gotas llegando a destino.

Si tú dejas...
...esta noche veremos
los silencios cantando sin sonido
las palabras temblando sin descanso
las estrellas gimiendo sin verguenza
la emoción declamando dulcemente
la canción galopando sin montura
el amor dibujando sus urgencias
elocuencias inclemencias y dolencias.

Si lo pides...
...esta noche será entonces
un planeta sin fronteras
la pregunta y su respuesta
dos amantes y sus juegos
una búsqueda sin miedo
un encuentro de mutantes sin prejuicios
conjugando grito y eco
ojo y brillo día y luna
noche y playa sol y sombra
el desierto y sus camellos
vela y viento
cruz y espada.

Esta noche
no lo dudes!....

Si tú vienes
y me quieres...
Si tú dejas
y lo pides...



Bruno Kampel (Analista Político, Poeta e Escritor Brasileiro, 1944- )

sexta-feira, março 14, 2008

Rosa Lobato Faria - E de novo a armadilha dos abraços



Foto: Carlos Machado



E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.




Rosa Lobato Faria (Actriz, escritora, autora e poetisa portuguesa, 1932- )

Fonte: Webclub

quarta-feira, março 05, 2008

Carlos Drummond de Andrade - A Moça que Mostrava a Coxa



Foto: Penélope Cruz



A moça mostrava a coxa,
a moça mostrava a nádega,
só não mostrava aquilo
- concha, berilo, esmeralda -
que se entreabre, quatrifólio,
e encerrra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
á visão dos seios claros,
qua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o maximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-d'alva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjoo
de fera presa no Zôo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre! mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
Mas que perfume teria
a gruta invisa? que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prístina, pura,
me chamava, me fugia?
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quando mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...



Carlos Drummond de Andrade (Poeta Brasileiro, 1902-1987)

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Affonso Romano de Sant'Anna - Poemas para a amiga (Fragmento 3)



É tão natural
que eu te possua
é tão natural que tu me tenhas,
que eu não me compreendo
um tempo houvesse
em que eu não te possuísse
ou possa haver um outro
em que eu não te tomaria.
Venhas como venhas,
é tão natural que a vida
em nossos corpos se conflua,
que eu já não me consinto
que de mim tu te abstenhas
ou que meu corpo te recuse
venhas quando venhas.

E de ser tão natural
que eu me extasie
ao contemplar-te,
e de ser tão natural
que eu te possua,
em mim já não há como extasiar-me
tanto a minha forma
se integrou na forma tua.



Affonso Romano de Sant'Anna (Poeta e Jornalista Brasileiro, 1937- )

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Armindo Rodrigues - Delicada e Robusta



Foto: Gamine, de Paulo Almeida



Delicada e robusta
te quero e te louvo.
companheira do lar,
companheira de luta.
Andas sempre ao meu lado,
no trabalho e no ócio.
Cheiras a sexo e a cravos.
Sabes-me a almece e a bolo.




Armindo Rodrigues (Médico, tradutor e poeta português, 1904–1993)

terça-feira, janeiro 29, 2008

Alberto Pimenta - Obra Carnal



ajoelha com a cabeça pousada
de lado as pernas abertas os
lábios palpitando na orla da
fresta abrasadora deixando e
ntrever o claro fundo coralí
ceo com os joelhos roçando n
o queixo e abrindo lentamet
e os dedos dos pés enquanto
eu vou penetrando de várias
maneiras ociosamente até sen
tir a caudalosa corrente de
bens espraiando-se como a via
láctea nas negras e eternas
muralhas do universo visível




Alberto Pimenta (Escritor, poeta e ensaísta português, 1937- )

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Carlos Alfredo Coto Amaral - Convite



Convido-te
(ao ouvido)
em carícia de vento
sob o teu corpo
de borboleta,
voando
no vale... tudo...
da sedução.



Carlos Alfredo Couto Amaral (Poeta português)

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Jorge Sousa Braga - Sono de Primavera



Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas




Jorge Sousa Braga (Médico e poeta português, 1957- )

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Alice Ruiz - Teu corpo seja brasa



Foto: Andreas Heumann



teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo



Alice Ruiz (Poetisa e escritora brasileira)

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Manuel Alegre - Um arrepio corre as minhas pernas



Foto: Bettina Bergemann



Um arrepio corre as minhas pernas
quando nelas se enrosca a tua cobra
mas pouco a pouco as mãos ficam mais ternas
e o que em mim se endireita em ti se dobra.

Por vezes se conjugam cobra e tigre
para que os anjos finalmente acordem
e o reino dos sentidos seja livre
quando as bocas se beijam e os deuses mordem.

Eis que as tuas agulhas me magoam
e as tuas unhas gravam em minhas costas
as aves do desejo que só voam

quando te faço tudo o que tu gostas
ainda que os prazeres por vezes doam
se acaso os dois abrimos outras portas.




Manuel Alegre (Político e poeta português, 1936 - )

domingo, novembro 11, 2007

David Mourão-Ferreira - Pele



Foto: Lajos Filep



Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele.



David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)

David Mourão-Ferreira - Tentei fugir da mancha mais escura



Foto:Andreas Heumann



Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.



David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)

David Mourão-Ferreira - Canção primaveril



Foto: Alex Krivtov



Anda no ar a excitação
de seios súbito exibidos
à turva luz de um alçapão,
por onde os corpos rolarão,
mordidos!

Ou é um deus, ou foi a Morte
que nos vestiu este torpor;
e a Primavera é um chicote,
abrindo as veias e o decote
ao meu amor!

Esqueço que os dedos têm ossos:
é só de sangue esta carícia;
apenas nervos os pescoços...
Mas nos teus olhos, nos meus olhos,
a luz da morte brilha.



David Mourão-Ferreira (Poeta português, 1927-1996)