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sexta-feira, abril 18, 2008

Renata Vilella - Deficiências



"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.

"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome,
de miséria. E só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um
amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

"Paralítico" é quem não consegue andar na direcção daqueles que precisam de sua ajuda.

"Diabético" é quem não consegue ser doce.

"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois "Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus.



Renata Vilella (Professora Brasileira)

domingo, setembro 02, 2007

Duncan Campbell Scott - Enigma



Foto de Pamela Hanson



Some men are born to gather women's tears,
To give a harbour to their timorous fears,
To take them as the dry earth takes the rain,
As the dark wood the warm wind from the plain;
Yet their own tears remain unshed,
Their own tumultuous fears unsaid,
And, seeming steadfast as the forest and the earth
Shaken are they with pain.
They cry for voice as earth might cry for the sea
Or the wood for consuming fire;
Unanswered they remain
Subject to the sorrows of women utterly -
Heart and mind,
Subject as the dry earth to the rain
Or the dark wood to the wind.




Duncan Campbell Scott (Poeta Canadiano, 1862-1947)

Biografia de Duncan Campbell Scott

domingo, abril 15, 2007

Lavínia Saad - Alguém me perguntou por que escrevo



Foto: Ana Rita Rodrigues



Remexe-se aquele feixe de nervos saltado
uma dor pequenina e gostosa
empurrar
com a língua o dente de leite solto
sentir
o gosto metálico da gengiva em flor viva
desenterrar

outra coisa que desponta na carne




Lavínia Saad (Poetisa e tradutora brasileira, 1975- )

Lavínia Saad - Hiato



No meio da semana você abre um parêntese,
Derrama tudo quanto te preenche, aí
Fecha o parêntese
E volta pro escritório.



NY, Abril de 2007

Lavínia Saad (Poetisa e tradutora brasileira, 1975- )

domingo, março 11, 2007

Florbela Espanca - Ódio?



Foto: I've cried enough, de Hamed!Cal



Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...



Florbela Espanca (Poetisa portuguesa, 1894-1930)

domingo, março 04, 2007

António Lobo Antunes - Vodka e Valium 10



Foto de Mardoe Painter-de-Jonge



Quem me espera não me espera
Quem me ama já esqueceu
Quem me toca dilacera
Esta estranha Primavera
Que o mês de Maio me deu

Eu já nem sei o que tenho
Se febre, se mal ruim
Se este sentimento estranho
De não ser de onde venho
Comigo longe de mim.

E assim fico sentado
Com as algas a boiar
De queixo na mão pousado
Ó meu barquinho parado
Sem porto para ancorar

Quem me espera não me espera
Quem me ama já esqueceu
Quem me toca dilacera
Esta estranha Primavera
Que o mês de Maio me deu



António Lobo Antunes (Escritor e Poeta português, 1942- )

domingo, fevereiro 25, 2007

Zeca Afonso - Traz outro amigo também



Amigo maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também


Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também




Zeca Afonso (Letrista e cantor português, 1929-1987)

domingo, fevereiro 18, 2007

Carlos Drummond de Andrade - O Mundo é Grande




Foto: We can be heroes, de Kazze



O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.



Carlos Drummond de Andrade (Poeta Brasileiro, 1902-1987)

Martha Medeiros - Foi um beijo...



foi um beijo onde não importava a boca
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinquente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca



Martha Medeiros (Poetida brasileira, 1961- )

Alfonsina Storni - A carícia perdida




Foto: Kissing shadows, de Silvester Cat



Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?



Alfonsina Storni (Poetisa e escritora argentina, 1892-1938)

Chico Buarque - O meu amor



Foto: The kiss, de Maia



Teresinha:
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

Lúcia:
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

As duas:
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

Lúcia:
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai

Teresinha
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

A duas:
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz



Extracto da Ópera do Malandro de Chico Buarque

Chico Buarque (Poeta e Cantor brasileiro, 1944 - )

Léa Waider - Quero lhe beijar a boca



Foto de NicolaRanaldi



Quero lhe beijar a boca
morder seus lábios
e brincar sua língua na minha.
Quero lhe beijar a nuca
lhe arrepiar inteiro
encostar meu peito no seu
até os corações se compassarem
as mãos entrelaçadas suarem.
Quero um abraço eterno
de guardar seu cheiro na minha pele.
Quero me queimar no seu fogo
e guardar pra sempre a cicatriz escarlate
desse nosso encontro.



Léa Waider (Poetisa brasileira)

Maria Teresa Horta - Gozo IX




Ondula mansamente a tua língua
de saliva tirando
toda a roupa...

já breves vêm os dias
dentro de noites já
poucas.

Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?

Oh meu amor...
devagar...
até que eu fique louca!

Depois... não vejas o mar
afogado em minha
boca!



Maria Teresa Horta (Escritora portuguesa, 1937- )

Teresa Machado - Dei-te um beijo



Dei-te um beijo e mitiguei
minha sede de mais beijos,
dei-te um só e lamentei
não me sarar os desejos...
Um só não é solução
pró lume que me arde no peito...
Mas faz bem ao coração
dar amor a um eleito!
Por isso eu hei-de beijar
vezes e vezes sem fim
tua boca apetecida,
e tu também me hás-de dar
a retribuição, enfim,
a tua pla minha vida!



Teresa Machado (Poetisa portuguesa)

domingo, janeiro 21, 2007

Sérgio Godinho - Os Afectos



Ah, quanta mágoa repetida
Ah, quantos sonos incompletos
Mas oh, quanta palavra tomou vida
Na nascente dos afectos
Desorganizados alfabetos

Não sabe ler neles quem pensa
nem lhe conhece bem as cores
quem por secundários os dispensa
aos afectos medidores
do corpo e da alma e seus sabores

Porque o quadrado da hipotenusa
é igual a já não sei quê dos catetos
a traça do passado é tão confusa
mas tão límpida a lembrança dos afectos
são fartos e temíveis
são as cordas sensíveis
quietos irrequietos
p´ra sempre
politicamente incorrectos
os afectos, os afectos

Era de uma espécie quase extinta
foi encontrada adormecida
a cara talvez em paz, talvez faminta
esperando a investida
de um só beijo que a devolva à vida

Já que se pede ao amor loucura
não se lhe dê veneno à flecha
nem triste pecado à mordedura
abre o pano e até que fecha
o amor busca nos afectos a deixa

Porque o quadrado da hipotenusa
é igual a já não sei quê dos catetos
a traça do passado é tão confusa
mas tão límpida e lembrança dos afectos
são fartos e temíveis
são as cordas sensíveis
quietos irrequietos
pra sempre
politicamente incorrectos
os afectos, os afectos



Sérgio Godinho (Poeta e cantor português, 1945- )

domingo, julho 09, 2006

A.R.Sant'Anna - Assombros






















Assombros


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.


Affonso Romano de Sant'Anna, in Lado Esquerdo do Meu Peito.


Foto: Ânsia, de Spiderblu in Flickr .