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domingo, setembro 16, 2007

Luz Lescure - Renuncio



Foto: Pisco Bandito



Renuncio, me retiro
de este juego, no me sé las reglas
yo jugaba a las blancas
pero tú haces jugadas que no entiendo
-tal vez hay muchas damas em tu mesa
o jugará este juego a tu manera-
Pero aún, a pesar de la tiniebla
y el miedo, tengo torres en pie
caballos empotrados en la noche
alfiles plata en línea de horizonte
mi corazón es reina entre la niebla
de tu insegura piel.
Jugador de noches tíbias, me retiro
prefiero mi soledad y mi antigua tristeza.
Mejor dejemos tablas la partida, amor.




Luz Lescure (Poetida do Panamá, 1951- )

Biografia de Luz Lescure

domingo, julho 29, 2007

Seamus Heaney - Despedida



Dama de blusa rendada
e saia simples de lã,
dês que deixaste a namorada
que por ela fica vã
dói pensar. Tua presença
movia o tempo, ancorado
num sorriso, mas a ausência
desmedindo o amor, deu brado
aos dias que desatinam
através do calendário
e por tua voz afinam
em flor de som terno e vário.
Irrompe a saudade e é quando
tu te foste, que ao mar vim.
Até tomares o comando,
fica-me o ser num motim.



Seamus Heaney (Poeta Irlandês, 1939- )

Philip Larkin - Deixemo-nos agora, meu amor: mas não



Foto de Bina Engel



Deixemo-nos agora, meu amor: mas não
seja amargo desastre. Houve no passado
muito luar a mais e auto-compaixão:
acabemos com isso; já como nunca é dado
agora ao sol audaz atravessar o céu
e nunca aos corações deram mais ganas
de serem livres contra mundos, florestas; eu
e tu não os detemos, nós somos as praganas
a ver o grão partir e é para outro uso.

E tem-se pena. Sempre se tem alguma.
Mas não demos às vidas laço escuso,
como barcos ao vento, de luz molhada a crista,
desferram do estuário e cada um lá ruma:
separam-se acenando e perdem-se de vista.



Plilip Larkin (Poeta Inglês, 1922-1985)

domingo, março 11, 2007

Florbela Espanca - Amor que morre






O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!



Florbela Espanca (Poetisa portuguesa, 1894-1930)

domingo, novembro 26, 2006

Elis Regina - Atrás da porta







Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pêlos
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho

Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me entregar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Só pra provar que ainda sou tua...


Chico Buarque (Poeta e Cantor brasileiro, 1944 - ) e Francisco Hime (Poeta Brasileiro)

Elis Regina e Chico Buarque - Pois é






Pois é
Fica o dito e o redito por não dito
E é difícil dizer que foi bonito
É inútil cantar o que perdi

Taí
Nosso mais-que-perfeito está desfeito
E o que me parecia tão direito
Caiu desse jeito sem perdão

Então
Disfarçar minha dor eu não consigo
Dizer: somos sempre bons amigos
É muita mentira para mim

Enfim
Hoje na solidão ainda custo
A entender como o amor foi tão injusto
Pra quem só lhe foi dedicação



Chico Buarque (Poeta e cantor brasileiro, 1944- )

domingo, outubro 29, 2006

Isabel Meyrelles - Tu já me arrumaste no armário dos restos



Tu já me arrumaste no armário dos restos


Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?



Isabel Meyrelles (Poetisa e escultora portuguesa, 1929- )


Foto no Flickr

domingo, setembro 17, 2006

Tom Jobim e Vinicius de Moraes - Amor em Paz



Foto: The lovers by Ishai



Eu amei
E amei, ai de mim, muito mais do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer e me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza aconteceu você
Encontrei
Em você a razão de viver e de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor é a coisa mais triste quando se desfaz

O amor é a coisa mais triste quando se desfaz



António Carlos Jobim (1927-1996) e Vinicius de Moraes (1913-1980)