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domingo, março 04, 2007

António Lobo Antunes - Aos maridos



Foto de Ralph Matucci




Os meu amigos moram à janela
De agências funerárias que morreram
Todos moram tão mortos como elas
Essas casas de acaso onde nasceram
Amo deitar o corpo nessa aurora
Desfeita como um leito por compor
Onde um suor de maridos se demora
Sem nada que os espante ou atraiçoe
Os meus amigos dormem sobre a mesa
Que os maridos trocaram pela sesta
Ou os prazeres de domingo: a praia o sol
E quando chegam cedo de surpresa
Notam a mesa posta a casa em festa
E um resto de amor sobre o lençol




António Lobo Antunes (Escritor e Poeta português, 1942- )

António Lobo Antunes - Tango do marido infiel numa pensão do Beato



Foto: Mask, de Olav Murillo



Sem tempo para ter tempo
De ter tempo de te dar
O tempo que tu mereces
Prazeres em que tu morresses
Manhãs que não amanheces
E arrepios que estremeses
Na boca de te beijar
Fico sentado no quarto
Desta cama de pensão
Ausente, despido farto
Cansado dessas mulheres
Que ouvem sem me escutar
Que me olhem sem me ver
Que me amem sem saber
Que me roçam sem tocar
Que me abraçam sem paixão
Que ignoram que eu anoiteço
Que me ensombro que escoreço
Que me enrudo e envelheço
Me pragueio e apodreço
E a quem pago o que me dão:
Uma espécie de ternura
Uma imitação de amor
Lençóis que são sepultura
De carícias sem doçura
E dos meus lábios sem cor
Ai dedos no cabelo
Quero a minha raiva toda
Quero domá-la e vencê-la
Quero vivê-la ao meu modo
Até encontrar por fim
Aquela voz de menino
Há tantos anos perdida
Há tanto tempo esquecida
Em soluços dissolvida
A gritar dentro de mim.



António Lobo Antunes (Escritor e Poeta português, 1942- )

António Lobo Antunes - Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto



Pintura: Madame Bell, de Picasso



Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada



António Lobo Antunes (Escritor e Poeta português, 1942- )