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domingo, dezembro 24, 2006

Ary dos Santos - Quando um homem quiser




Fonte: Pregnant with my daughter, April 2004, by DEP


Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher



Ary dos Santos (Poeta português, 1937-1984)

David Mourão-Ferreira - Litania para o Natal de 1967

Foto by Loic Peoc'h


Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos pedir contas do nosso tempo


David Mourão Ferreira (Poeta português, 1927-1996)

Ângela Santos - Gingle Bells





Gingle
Bells
Segundo dia do mês da celebração
Natividade, a alegria…
mas não se esquece
o que escorre por fora dos dias da festa

Luzes, ruas serpenteadas, tristeza e alegria
olhos de água rasos, fartura, falta,
miséria, desperdício, descaminhos,
almas vazias e a imensa solidão…
dos que vão sozinhos
pelas avenidas feridas de Neóns

Gingle Bells
nas vitrines, nos corações que comerciam
na imaginação pura e sem enfeites das crianças,
nos olhos de quem vai ao frio
sentir que está longe de tudo
e guarda esbatida, a memória longínqua
de uma noite de Natal.

"We Wish a Merry Christmas"
cantam sorridentes pais-natais
dentro de redomas longe do alcance
de quem não sabe outra língua
e fixa com olhos de espanto
o boneco barbudo articulado
Perdidos, apressados, massificados
não reparamos…
atiramos os dias pela janela
guardando o brilho nos olhos
para a festa marcada nos calendários.

Natal
quotidianamente impresso
em nossas vidas e gestos
diária celebração, era o Natal que eu queria
ter
sem uivos que rompam a nossa surdez
ou ilusórios mundos de luz
sem marcas na agenda que insistem lembrar
que é dia da vida acontecer.



Ângela Santos


Leopoldo Neto - Noite de Natal




Fonte: There are many who seek the stars, by Carf

Cidades enfeitadas
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.


Leopoldo Neto


Marly de Oliveira - Natal



Foto: Sinais de tempestade, by Catedral




Natal. Nesta província não neva,
mas a chuva anda constante,
e anda tão longe, perdido,
o que a alma busca na treva.

Que me ficou do ano findo?
Que se pode aprender neste Natal?
A renascer, gritam os sinos,
embora todos saibam que é mortal
aprendizagem essa, sem sossego.

Nasce um deus de palha que o cerca
e nos convida a reviver sua paixão,
já não a cada ano, a cada instante
renovada. E o sangue se rebela
e tem vontade de dizer-lhe não.


Marly de Oliveira (Poeta Brasileiro, 1935- )



Miguel Torga - Natal




Foto: Witches night, de Myiuditz



Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, actual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quizilento,
Redemoinha e sai:

A volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?


Miguel Torga (Escritor e poeta português, 1907-1995)


Miguel Torga - Loa



Foto: Baby hand b:w, by Buzz Hayes


É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal que passou.


S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1969.

Miguel Torga (Escritor e poeta português, 1907-1995)