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quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Eugénio de Andrade - To a Green God

Trazia consigo a graça
das fomes, quando anoitece,
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
de uma flauta que tocava.



Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923-2005)

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Eugénio de Andrade - Para quem eu amo



Pintura: Fervor de Antoine de Villiers



Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.




Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923-2005)

domingo, novembro 18, 2007

Eugénio de Andrade - Entre os teus lábios



Foto: Bina Engel



Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.




Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923-2005)

domingo, maio 06, 2007

Eugénio de Andrade - Poema à Mãe



Foto: Rosa, de Luis Gonzalez Palma



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.




in «Os Amantes Sem Dinheiro»

Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923-2005)

segunda-feira, outubro 23, 2006

Eugénio de Andrade - Não Canto Porque Sonho



Não canto porque sonho


Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
O teu sorriso puro,
A tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
somente um bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinha.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.


Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923-2005), in «As Mãos e os Frutos»



Foto por Elena & Vitaly Vasilieva

domingo, julho 23, 2006

Eugénio de Andrade - Nas ervas























Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho –
a glande leve.


Eugénio de Andrade (1923-2005)


Pintura de Erica Chappuis



domingo, julho 16, 2006

Eugénio de Andrade - Urgentemente












Foto: Red by Andy2



Urgentemente


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cái o silêncio nos ombros e a luz,
impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente
permanecer.



Eugénio de Andrade (Poeta Português, 1923-2005)


P.S. Poema enviado pela Carina. Agradeço a contribuição.