Mostrar mensagens com a etiqueta Mãe. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mãe. Mostrar todas as mensagens

domingo, agosto 05, 2007

Kalungano - Sonho de Mãe negra



Foto: Mãe Cacau, Luís Lobo Henriques



Mãe negra
Embala o seu filho
E na sua cabeça negra
Coberta de cabelos negros
Ela guarda sonhos maravilhosos

Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Que o milho já a terra secou
Que o amendoim ontem acabou

Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho iria á escola
Á escola onde estudam os homens

Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Os seus irmãos construindo vilas e cidades
Cimentando-as com o seu sangue

Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho correria na estrada
Na estrada onde passam os homens

Mãe negra
Embala o seu filho
E escutando
A voz que vem de longe
Trazida pelos ventos
Ela sonha mundos maravilhosos
Mundos maravilhosos
Onde o seu filho poderá viver.



Kalungano (Pseudónimo de Marcelino dos Santos, poeta moçambicano)

domingo, maio 06, 2007

Eugénio de Andrade - Poema à Mãe



Foto: Rosa, de Luis Gonzalez Palma



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.




in «Os Amantes Sem Dinheiro»

Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923-2005)

Lopes Morgado - Só por isso, Mãe



Mesmo que a noite esteja escura,
Ou por isso,
Quero acender a minha estrela.

Mesmo que o mar esteja morto,
Ou por isso,
Quero enfunar a minha vela.

Mesmo que a vida esteja nua,
Ou por isso,
Quero vestir-lhe o meu poema.

Só porque tu existes,
Vale a pena!



Lopes Morgado (Poeta português)

António Maga - Mãe



andam por aí, por essas ruas sujas, umas mulheres notáveis.

são mulheres de meia-idade, ligeiramente curvadas. andam frequentemente com sacos com mercearias e pão, que já lhes pesam um pouco nos braços cansados. têm um andar silencioso, quase que deslizam. o seu sorriso é tímido, por vezes, quase assustado, nestes tempos de agora, em que toda a gente fala aos gritos e se atropela, numa pressa de grosseria... quando as vejo passar, sinto medo que se magoem, mas, quase sempre, elas passam por essa gente como um rasto de perfume silvestre...

são mulheres frágeis. a saúde debilitada pela vida sofrida, pelo trabalho, pelos partos, pelos filhos. no rosto, desenhadas a traço profundo, muitas rugas à volta dos olhos límpidos. foram muitas preocupações. sempre. sempre. e quase nunca com elas. a sua vida correu numa coragem silenciosa, altruísta.

essencialmente, são mães. mais que mulheres são mães.
já estão reformadas. mas nunca deixam de trabalhar. têm algumas tardes difíceis. quando estão sozinhas, numa casa que se esvaziou com os anos.
então, por vezes, pensam na sua vida, pensam na sua infância, e começam a chorar devagarinho. sentem que tudo passou muito depressa.

essas mulheres que estão sempre em casa. sempre lá. sempre à espera de um filho ou de uma neta. sempre lá. sempre prontas a ajudar. sempre prontas a cozinhar uma refeição tardia.

são tardes terríveis. são longas. elas estão sozinhas em casa. e sabem muito bem que não vão estar sempre lá. sentem que não deviam estar sozinhas. que não merecem isso. e têm toda a razão do mundo. mas estou a falar de pessoas muitos especiais.

são pessoas de amor desmedido. nunca o dizem, mas acham sempre que os filhos mereciam uma namorada melhor.

são mulheres sem preço. se vão ao hospital, visitar um filho doente, olham os médicos e os enfermeiros que o tratam, numa súplica muda de desvelo.

são mulheres de eleição!
uma delas é minha mãe!
merecia um filho melhor que eu!
merecia um texto melhor que este.
merecia um mundo infinitamente melhor que este.

com amor



António Maga (Escritor Português)


domingo, agosto 27, 2006

Alda Lara - Prelúdio



Foto "Mãe" by Zokete




(para Lídia, minha velha ama negra)


Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra desce com ela.

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos
nas suas mãos apertadas...

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
tem voz de noite descendo
de mansinho pela estrada.

... Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada.
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo,
Mãe-Negra...

É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaços,
bem quieta, bem calada...

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo
de mansinho pela estrada...



Alda Lara (Poeta angolana, 1930-1962), in «Resistência Africana» - Antologia Poética