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domingo, abril 08, 2007

Palavras Recebidas # 3



Quando iniciei este blog, um dos meus desejos, era que, os seus visitantes participassem na sua construção. Pedi comentários e palavras vossas, ou palavras que vocês amem. Pretendia e pretendo que os poemas que publico gerem sentimentos, conversas, discussões e novas palavras. Foi isso que aconteceu com o Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto, de António Lobo Antunes. Depois do poema do Zenite, esta semana recebi um poema do Tó Zé. Muito obrigada aos dois por participarem neste blog.


Foto: Saint (as saint...?) by Zew1920



Nem santo nem lobo
eu que me comovo
por tudo e por nada
vi uma catraia
perdida na rua
só abandonada
vestida ia nua
já mulher-da-vida
não ouvi seus ais
ignorei sua dor
também o seu cheiro
não sei se tem pais
se é filha querida
se precisa de amor
ou apenas dinheiro
segui minha vida
de tudo alheado
ignorei seu fado
não mais a lembrei
até certo dia
ao ler um poema
ao som do Bolero
eu que me comovo
por tudo e por nada
pergunto a mim mesmo
se é isto que quero
eu que me comovo
ignoro o meu povo
nem santo nem lobo


Foto: Aleksander Bochenek



Tó Zé Rodrigues


domingo, abril 01, 2007

Palavras Recebidas # 2



Depois de ler o Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto, de António Lobo Antunes, O Zenite ofereceu-me as suas palavras sentidas. Entrego-as hoje a todos vós.


sim, quinze anos tinha
no seu corpo em brasa
a tal senhorinha
que não tinha casa.
tinha tranças d’oiro
e a pele alvacenta
tu foste o primeiro
a arrastar-lhe a asa
naquele janeiro
dos anos setenta.

ela pai não teve
sequer tinha mãe
não tinha sapatos
não tinha vestidos
não tinha ninguém
só dias sofridos.

não havia lua
não havia estrelas
e não tinha abrigo,
a casa era a rua
da pobre donzela
que não tinha amigos.

o seu corpo grácil
de pele de alabastro
jamais resvalado
não tinha cadastro
mas foi presa fácil
dum lobo esfaimado.

se um dia voltares
à estrada velha
no negrume agreste,
detém-te e descobre-te,
acende uma vela:

verás numa faia
- ou “feral cipreste”? -
a seta-coração
bem como a mensagem
que a bela catraia
em aflito pranto
no tronco entalhou
nessa noite túmulo
do seu corpo espanto.
verás, para cúmulo,
que foste o primeiro
e também o último
a dar-lhe dinheiro.



Zenite

domingo, março 04, 2007

António Lobo Antunes - Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto



Pintura: Madame Bell, de Picasso



Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada



António Lobo Antunes (Escritor e Poeta português, 1942- )