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domingo, abril 08, 2007

Ilka Brunhilde Laurito - Comunhão



Foto: Magic Zyks


Já que me sinto muito digna
de me assentar à tua mesa,
não quero migalhas, não,
eu quero o pão inteiro.

Tu e eu, massa e fermento
em ávido silêncio:
casca e miolo,
o bolo
e o seu recheio

Vem.
Estende os lençóis sobre esta
mesa
com cheiro de suor e de
alfazema.
E vamos trabalhar a noite
e o seu levedo
com as mãos,
a boca,
o corpo aceso,
para que a aurora nos en-
tregue,
ainda quentes,
as últimas fatias de amor
amanhecente
com gosto de café, de leite
e de manteiga.



Ilka Brunhilde Laurito (Poetisa brasileira, 1925- )

Ilka Brunhilde Laurito - V [Canto ao arrumar a cama]



Canto ao arrumar a cama,
canto
diligente verônica
oficiando os passos
da paixão cotidiana.

Exibo ao meu espelho atônito
os lençóis que estampam o corpo
do senhor que nunca me salvou
da crucificação no pranto.

E canto porque canto,
sem esperanças de glória
ou de ressurreição.



Poema integrante da série Suíte Doméstica.

Ilka Brunhilde Laurito (Poetisa brasileira, 1925- )